O Estado de S. Paulo

Pitty lança álbum de inéditas: ‘3 anos de terapia em 13 músicas’

Compositora e cantora volta às origens em disco em que o rock se mistura a outros gêneros e estilos musicais

EREM CARLA

Depois de sete anos sem lançar um álbum de inéditas, Pitty acaba de colocar no mercado PITTY. O sexto disco de estúdio da cantora reúne 13 faixas e nasceu de um processo de composição que ela própria define como inédito.

“São três anos de terapia colocados em 13 músicas”, resume. Em entrevista ao Estadão, a artista explica a liberdade que orientou a criação do álbum, a experimentação musical e a relação com o público que acompanha sua carreira há mais de duas décadas.

O novo trabalho chega após Matriz, lançado em 2019, e mantém o rock no centro da linguagem musical da cantora, embora explore outras possibilidades rítmicas. Para Pitty, a experimentação não partiu de um plano calculado, mas de uma vontade espontânea de criar. “Eu não racionalizei nada, eu não pensei: ‘Ah, eu tenho que ter uma música assim, outra música assado, outra música X’. Não. Foi um processo absolutamente intuitivo.”

A sensação de recomeço que acompanha PITTY está ligada à maneira como as músicas surgiram. Embora tenha o hábito de escrever constantemente e guardar ideias para projetos futuros, a cantora percebeu que, desta vez, não havia retomado nenhum material antigo. A observação veio de Rafael Ramos, parceiro de longa data que assina com ela a produção do álbum.

“Eu escrevo muito, o tempo todo, só que dessa vez aconteceu um negócio inédito, que me chamou a atenção inclusive, foi o Rafa, que trabalha comigo há mil anos, que falou assim: ‘Você percebeu que dessa vez você não revisitou nada?’. Foi tudo do zero, foi tudo fresco, foi tudo de agora. Por isso que eu estou sentindo que é um primeiro disco. Porque é tudo agora. Esse assunto é de agora.”

O processo também a aproximou da maneira como compunha no início da carreira. “Como se tivesse aquela essência daquele quarto lá de Salvador, só que agora, em 2026, com essa mulher que eu sou hoje, mas recuperando de uma certa forma aquela essência da simplicidade dos três acordes, de uma câmera na mão e ideia na cabeça, de tocar numa garagem. Acho que eu nunca me abri tanto num disco.”

CAMINHOS. Em PITTY, o rock continua sendo a base musical, mas não determina sozinho os caminhos das novas composições. Armadura explora uma sonoridade mais dançante, enquanto Desobediente combina referências melódicas distintas, batida de hiphop e guitarras pesadas.

“Eu não pensei: ‘Ah, eu tenho que ter uma música assim, outra música assado. Foi um processo intuitivo”

“Eu escrevo muito, o tempo todo, só que dessa vez aconteceu um negócio inédito. Foi tudo do zero, foi tudo fresco, foi tudo de agora”

Pitty Cantora e compositora

A cantora não estabelece previamente até onde pode ir musicalmente. A compreensão do resultado, acredita, também depende da maneira como as músicas serão recebidas por outras pessoas. “Eu vou entender quando esse disco for para o mundo. Cada vez que eu converso com alguém, eu entendo mais sobre esse disco, porque eu acho que a gente só entende o que a gente faz quando vai pro coletivo.”

A aproximação com outros gêneros também faz parte de sua maneira de enxergar a música. Pitty diz que se conecta, por exemplo, ao hip-hop: “Não é sobre o estilo de música, é também sobre a mensagem, é sobre a ideia. Vai além do gênero que está escrito ali na prateleira. Eu acho que é a junção de ideias, quando as ideias se conectam, os ideais se conectam.”

Em Caminhada, a cantora aborda parceria e sororidade em versos sobre apoiar outra mulher nos momentos de fragilidade. A temática dialoga com uma trajetória construída em uma cena historicamente marcada pela presença masculina. Pitty diz que os últimos anos trouxeram avanços na participação das mulheres no rock e destaca a força das artistas do rap. “Eu não gosto de separar gênero, porque eu acho que a gente está querendo equidade. Então, esse negócio de rock de mulher, rock de homem. A gente é música, é arte”, afirma.

Em Sobremesa, primeiro single do álbum, as participações das artistas foram articuladas pouco antes da gravação, a partir de conversas com MC Taya, o que a aproximou de nomes que estão construindo novos caminhos no universo do rap. “Eu tenho visto um movimento bem massa nesse sentido. E assim, demorou esse tempo todo para poder ver, e eu sou superentusiasta, eu quero que isso se consolide e cresça”, diz.

Ao longo de mais de 20 anos de carreira, Pitty construiu um público de diferentes idades e origens. “O maior prêmio que eu acho que eu tenho na vida é olhar pro meu público e ver exatamente essa paisagem.”

VERDADE. A relação transparente com o público também orienta a maneira como Pitty reage às cobranças por manifestações mais explícitas nas redes sociais. Ao longo da carreira, a cantora foi questionada por fãs sobre posicionamentos públicos e precisou lidar com expectativas em torno de sua atuação para além da música. “Eu lido com a verdade, desde sempre. Eu não posso ceder a uma demanda externa só porque é uma demanda externa”.

“Quando a gente perde coerência com o que a gente pensa, com o que a gente é, não tem como voltar atrás. Então eu tento, procuro e pratico ser coerente com o que eu digo. E, principalmente, não com o que eu digo, com o que eu faço, da forma que eu vivo”, explica.

A cantora acredita que a relação construída com seus fãs ao longo dos anos, baseada, segundo ela, sempre na transparência, ajuda a tornar esse diálogo possível. “Eu sinto que as pessoas que realmente gostam do meu som, do meu trampo, elas entendem”, conclui.

CULTURA & COMPORTAMENTO

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2026-10-21T07:00:00.0000000Z

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