O Estado de S. Paulo

Não adianta só viver mais: precisamos colocar mais vida nos anos, diz médico expert em IA

Referência em inovação em saúde, ele defende a tecnologia como aliada para oferecer tratamentos mais personalizados

ISABELA MOYA

Vivemos mais, mas nem sempre esses anos a mais vêm acompanhados de saúde. É a partir dessa preocupação que ganha força o conceito de healthspan – a expectativa de vida saudável–, que propõe deslocar o foco da longevidade para a qualidade dos anos vividos. O médico americano Daniel Kraft, referência em inovação em saúde, é um defensor desse conceito.

Nada de fórmulas mágicas ou promessas de rejuvenescimento instantâneo – o que funciona é aquilo que a ciência já valida há décadas, somado à prevenção e à detecção precoce de doenças, diz Kraft. Formado pela Stanford University, com treinamento em pediatria e oncologia, ele lidera discussões internacionais sobre inteligência artificial, biotecnologia, saúde digital e o futuro da assistência médica. Entre os pilares para alcançar o healthspan, o básico bem feito – exercício, sono, nutrição, senso de comunidade e propósito – continua sendo o mais importante, mesmo em meio a novas tecnologias promissoras, diz ele.

Para ele, a IA promete democratizar o acesso à saúde, personalizar diagnósticos e tratamentos, além de acelerar avanços como as vacinas personalizadas contra o câncer. Mas isso não chega sem riscos: dados de treinamento pouco diversos, informações médicas incorretas replicadas em escala e a tentação de substituir o julgamento clínico humano por respostas de IA automatizadas e “bajuladoras”. Veja a entrevista a seguir:

O que é o conceito de healthspan e por que ele é mais

A informação é um instrumento social de saúde. (...) Ela pode ser um elemento muito poderoso, não só para sua vida, mas para sua comunidade, seu país”

importante do que a expectativa de vida em si?

Hoje existe muito interesse em longevidade. E longevidade significa, basicamente, o número de anos que você vive. Mas sabemos que, para muitas pessoas, os últimos 20, 30 anos de suas vidas podem ser de qualidade muito baixa. Então, existe essa ideia de qualidade de vida e de healthspan, ou seja, colocar mais vida nos seus anos, e não apenas mais anos em número.

Acho que o objetivo para todos na sociedade é melhorar o healthspan e diminuir o adoecimento, para que possamos viver até os 110, 120 anos – mas, quando estivermos com 110, não vamos sentir como se tivéssemos 110. Talvez sejamos tão ativos e cognitivamente capazes quanto aos 50 ou 60 anos.

E o que podemos fazer para alcançar isso?

A genética certamente pode afetar sua saúde e seu healthspan. Mas há muitas coisas que podem estender seus anos saudáveis e prevenir o risco de doenças. E essas coisas não são tão “sexy”: exercício, sono, nutrição, comunidade e senso de propósito. Esses são, às vezes, os melhores remédios – particularmente exercício e dieta são provavelmente os mais impactantes. Aliás, sabemos que o que mais contribuiu para nossa longevidade e saúde não foi modificação genética nem alguma imunoterapia fantástica. Foram as vacinas e o saneamento básico,

Precisamos usar tecnologia, incluindo IA, para potencializar o lado humano da saúde e deixar a tecnologia fazer as partes em que nosso cérebro não é tão bom”

água limpa, que previnem doenças antes que as tenhamos.

Você acredita que apenas adotar um estilo de vida saudável é suficiente para ultrapassar os 100 anos de idade vivendo bem? Existe alguma tecnologia que pode acelerar isso?

O básico já é difícil de fazer bem, e não é a mesma coisa para todo mundo. Algumas pessoas têm certos riscos e talvez precisem ser rastreadas de forma diferente. Então, parte de viver uma vida saudável é a prevenção e a detecção precoce. Preste atenção em ser proativo quanto à sua saúde. Às vezes se trata de saber que você está em risco e ser proativo, fazer seu check-up anual, seus exames de rastreamento. Muitas pessoas estão desenvolvendo doenças e morrendo quando poderiam tê-las prevenido, se tivessem feito uma mamografia ou colonoscopia.

Cada vez mais, vamos caminhar para uma espécie de healthspan de precisão: o que vai ser bom para uma pessoa é diferente do que vai ser bom para outra, dependendo da idade, localização, personalidade e genética. E novas tecnologias – da genômica à medição de onde você viveu, ao que foi exposto, com quem convive, até o que você consome nas redes sociais e que política segue – podem contribuir de formas diferentes para o seu healthspan.

De que forma o consumo das mídias sociais impacta a longevidade?

A informação é um instrumento social de saúde, incluindo a desinformação. Nos EUA, durante a pandemia, podíamos ver, pelo código postal, que áreas muito republicanas eram resistentes a máscaras e vacinas. A mortalidade delas era muito mais alta do que em áreas democratas, onde as pessoas prestavam atenção nas medidas de saúde pública e se vacinavam. Então, a informação pode ser um elemento muito importante, e a desinformação pode ser muito poderosa também, não só para sua vida, mas para sua comunidade, seu país.

Hoje, quando falamos de tecnologia, parece que estamos falando sempre de IA. Onde a IA entrega benefícios para a saúde?

Inteligência artificial não é nova, mas está em sua fase exponencial agora e começa a se integrar em praticamente todas as partes da cadeia de cuidados da saúde. É um campo amplo, mas o que acho empolgante é que está começando a democratizar o acesso à informação de saúde. Você vai ter, no seu celular, seu médico de saúde pessoal, que sabe sobre você desde seu nascimento. Ele pode saber sua genômica, seus dados digitais da sua camiseta inteligente, ter seus prontuários médicos, saber seu tipo de personalidade e como te dar aquele empurrãozinho para ir à academia em vez de comer uma bolacha.

E o desafio com a saúde é que ela é muito difícil de acessar, especialmente em partes do Brasil, em zonas rurais, na Amazônia, onde é preciso percorrer longas distâncias para ver um médico – se é que há um médico disponível. Há uma oportunidade real de engajar mais as pessoas na sua saúde e, então, quando elas tiverem um problema médico, em vez de tratá-las como um paciente médio, vamos entender o que vai ser melhor em um nível altamente pessoal e de precisão.

E quanto ao risco de profissionais perderem a criticidade e a capacidade de julgamento próprio, como podemos evitar isso?

É um desafio: como não perder a habilidade e passar a usar a tecnologia sem usar nosso cérebro? Sam Altman, cofundador da OpenAI, disse que o GPT é como uma bicicleta para a mente – deixa mais fácil, você não precisa pedalar tão forte. Mas o problema é: e se seus filhos nunca aprenderem a andar de bicicleta de verdade? Ou nunca desenvolverem o músculo da bicicleta? Ou um estudante de medicina nunca aprender a construir um diagnóstico diferencial sozinho? Há certas coisas que não podemos deixar de ter.

Em que a IA nunca vai conseguir substituir os profissionais da saúde?

O que a IA ainda não faz é substituir a relação clínica humana, que pode ser muito terapêutica. Se eu sou seu médico, mesmo que eu te veja só uma vez por ano, nós temos uma relação. E mesmo se eu usar ferramentas de IA para te avaliar, você vai estar muito mais engajado na sua saúde se souber que tem um profissional cuidando de você. Precisamos usar tecnologia, incluindo IA, para potencializar o lado humano da saúde e deixar a tecnologia fazer as partes em que nosso cérebro não é tão bom, como saber cada exame.

As inovações podem empolgar, mas irão chegar aos sistemas públicos de saúde, como o SUS aqui no Brasil?

As tecnologias vão ajudar a democratizar e, tenho esperança, melhorar a saúde e a medicina no mundo, com melhores resultados a um custo menor – porque sabemos que, com a trajetória de crescimento populacional em muitos países, e com o custo da saúde representando quase 20% do PIB dos EUA, é insustentável continuar nesse caminho. Muitas tecnologias começam caras, mas, depois, ficam mais disponíveis e baratas. •

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2026-10-03T07:00:00.0000000Z

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