O mundo (insuportável) descrito pelos traços de Robert Crumb
Em ‘Tempos Modernos’, coletânea criada para o Brasil, artista ridiculariza Trump, provoca a ‘galera woke’ e critica vacinas
GABRIEL ZORZETTO
Um homem profundamente inserido em seu tempo, mas constantemente em desacordo com ele. Essa contradição, presente ao longo de toda a vida de Robert Crumb, hoje com 82 anos, serve como fio condutor da coletânea Tempos Modernos, produzida exclusivamente para o Brasil pela Veneta, editora responsável pela publicação dos quadrinhos do americano há anos. Não por acaso, o título remete ao filme de mesmo nome de Charlie Chaplin, de 1936, uma crítica à industrialização e ao capitalismo.
A nova publicação é assinada pela família Crumb, pois alguns dos cartuns são colaborações entre Robert e sua falecida esposa Aline Kominsky-Crumb. A filha do casal, Sophie Crumb, também fez contribuições pontuais. A ideia da Veneta foi reunir artes inéditas no País, produzidas desde o fim dos anos 1970 até os anos que antecederam a morte de Aline, em 2022.
Profética, a primeira história do livro, feita em 1981, critica o “hype” em torno das viagens espaciais, sendo adequadamente associada ao cartum seguinte, que mostra a humanidade à beira da extinção por ter destruído “os equilíbrios harmoniosos da natureza”. Pouco depois, duas figuras alienígenas interagem no trecho mais grotesco da HQ.
Menos interessante, parte da coleção é estrelada por Mode O’ Day (Moda do Dia), personagem que ironiza a cena artística nova-iorquina dos anos 1980 e 1990. Em arte publicada em 1991 na revista Première, especializada em cinema, Crumb traça sua ida à cerimônia do Oscar. Deslocado e irritado com o culto às celebridades em Hollywood, o cartunista se assusta com homens que pareciam “gângsteres” e mulheres com “olhares predatórios” e “bocas cruéis pintadas de batom”.
Mas o que há de melhor nesta HQ surge no final, quando o casal Crumb transborda entrosamento e senso de humor autodepreciativo. A partir de um mergulho na intimidade deles durante a pandemia de covid19, na França, o leitor vai cair na risada com o contraste de personalidades: Robert é rabugento, recluso e pessimista, enquanto a extrovertida Aline gostava de malhar e fazer ioga.
Diante da onda de mortes e contaminações, um paranoico Robert Crumb, com seus olhos comicamente esbugalhados e barba branca, se recusa a tomar a vacina e contrai o vírus. “A pandemia toda pode não ser nada mais do que uma estratégia de marketing!”, ele afirma, sugerindo complôs que envolvem a indústria farmacêutica. O autor destaca, inclusive, que a esquerda francesa foi inicialmente antivacina, ao contrário do que ocorreu nos EUA.
PREDADOR. Afiado, o artista também provoca a “galera woke” ao fazer piadas com o corpo de Aline e lembrar a maneira “inadequada” com que ele se comportava diante das mulheres em sua juventude. “Eu era um verdadeiro predador sexual”, relembra, com embaraço, um tema que também foi aludido no fundamental documentário Crumb (1994), de Terry Zwigoff. “Ainda bem que você não ganhou um Oscar ou um Pulitzer para eles tirarem...”, responde Aline.
Em outra história hilária, o casal discute questões financeiras após saber que o Tesouro Público da França e a Receita Federal dos EUA abocanhariam considerável quantia da venda milionária de uma arte original de Robert. Aconselhado a investir no mercado de ações, em empresas como Pfizer e Monsanto, o cartunista fica indignado. “Essas são as piores”, ele reclama. “Por outro lado, ser pobre não é nada fácil. É bom ter dinheiro para ficar em bons hotéis e comprar discos de blues.”
Donald e Melania Trump são ridicularizados em Alimentação Ruim & Penteado Ruim, no qual Crumb confessa achar impossível reproduzir o cabelo do presidente americano. Um pouco de modéstia, afinal, seus contornos estão precisos, sem exageros, evitando resultar em uma caricatura de alguém já caricato.
Décadas após se consagrar como símbolo da contracultura e de revolucionar o gênero com seu estilo irreverente, Crumb mostra, em Tempos Modernos, que continua controverso. Ainda que esteja produzindo menos por causa da idade, segue capaz de refletir com audácia sobre as agruras de uma civilização aprisionada pela cultura consumista. •
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2026-04-28T07:00:00.0000000Z
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