O Estado de S. Paulo

Ucranianos transformam laser usado para entreter pets em arma de guerra

Equipamento usado para entreter e alimentar bichos entra na guerra

ANDREW E. KRAMER

Odispositivo utiliza muitos componentes eletrônicos das armas mais mortíferas da guerra moderna. É operado remotamente e é capaz de reconhecer imagens. E dispara um laser.

Criado pelo empreendedor ucraniano Yaroslav Azhniuk, e sua equipe, o Petcube é como uma caneta laser. Trata-se de um aparelho controlado por smartphone para monitorar e entreter cães e gatos remotamente, quando os bichos estão sozinhos em casa. Quando Azhniuk o testou pela primeira vez no cachorro de um colega, que latia solitário, incessantemente, o animal saltou freneticamente perseguindo o laser, segundo relatou o empresário.

Hoje o Petcube é vendido em dezenas de países. Mas os fundadores da empresa que o produz partiram para uma nova ideia, que reflete a abrangente transformação da indústria de tecnologia civil da Ucrânia em um polo de contratos militares.

Depois de, inicialmente, fazer piada sobre criar um Petcube militar, com lasers mais potentes para alcançar tropas russas, Azhniuk e sua equipe passaram a se dedicar a drones com visão em primeira pessoa (FPV). Esses pequenos quadricópteros carregados de explosivos são onipresentes nos campos de batalha na Ucrânia.

Agora atuando em duas novas empresas chamadas Odd Systems e The Fourth Law, a equipe integrou um sistema de reconhecimento de imagem com inteligência artificial aos drones. Em vez de identificar, digamos, um cachorro ou um gato, o equipamento é programado para detectar veículos militares, peças de artilharia e soldados inimigos.

COMO FUNCIONA. O sistema de reconhecimento de imagem é integrado a um programa de piloto automático usado para os ataques. Os pilotos que operam os drones da Odd Systems utilizam uma abordagem de mira chamada YOLO (sigla em inglês para “você só olha uma vez”). Depois que avistam um alvo, os operadores acionam um sistema automatizado, e o drone percorre os últimos 400 metros de forma autônoma, tornando-o imune a interferências de sinal russas.

A Odd Systems também produz um interceptador projetado para derrubar drones Shahed, de fabricação iraniana. A Rússia vem lançando esses drones baratos contra a Ucrânia há anos, e o Irã os utilizou nas semanas recentes para atacar bases e embaixadas dos EUA – e outros alvos – no Oriente Médio.

O interceptador da Zerov é uma aeronave rápida, em formato de foguete, com quatro hélices, programada para identificar os Shaheds, voar em sua direção e explodi-los.

Os ataques iranianos despertaram um grande interesse em tecnologias ucranianas anti-Shahed. A Odd Systems se recusou a informar se está exportando seus produtos para o Oriente Médio ou se planeja entrar nesse mercado.

Na Ucrânia, os drones FPV da Odd Systems, equipados com sistemas de reconhecimento de imagem, são usados regularmente na linha de frente. A empresa está testando versões que voam autonomamente ao longo de uma rota programada e atacam alvos identificados em bancos de dados.

“Nós fabricávamos câmeras que atiravam petiscos para bichos de estimação e agora fabricamos câmeras que atiram explosivos”, disse Azhniuk, de 37 anos, durante entrevista concedida em um restaurante de Kiev.

Antes da guerra, o fundador da Petcube dividia seu tempo entre a capital ucraniana e San Francisco, aprimorando seu dispositivo para cuidado de bichos de estimação. Azhniuk é oriundo de um grupo de acadêmicos ucranianos que, segundo ele, menosprezaram o projeto inicialmente, classificando-o como fútil.

No dia em que a Rússia iniciou seu ataque, Azhniuk decidiu renunciar ao cargo de diretor executivo e se concentrar em ajudar a defesa da Ucrânia. Em 2023, fundou a Odd Systems e a Fourth Law, com objetivo de enfrentar o que considerou um desafio tecnológico crucial na guerra.

Cerca de 90% dos drones caem em vez de atingir um alvo. Seus sinais de vídeo são bloqueados ou as aeronaves saem do alcance do rádio e despencam do céu. O sistema de mira automática de Azhniuk visa solucionar esse problema.

INOVANDO EM DEFESA. A Odd Systems e uma empresa-irmã operada pela mesma equipe, a Fourth Law, são considerada startups de armamentos emblemáticas na Ucrânia. Investidores vêm encontrando oportunidades, em parte de olho em um período pós-guerra no qual as empresas poderiam exportar seus produtos, além de abastecer o exército ucraniano.

Ideias para armas que parecem exóticas ou fantasiosas estão chegando ao campo de

batalha em ritmo acelerado. Balões de hélio que lançam drones, armas que disparam redes em vez de projéteis, lanchas explosivas pilotadas remotamente, robôs com rodas que resgatam soldados feridos e drones subaquáticos vêm encontrando espaço nas forças armadas ucranianas.

Os drones subaquáticos se parecem com postes telefônicos pretos e lisos dotados de hélices. No fim do ano passado, um drone atingiu e danificou um submarino russo atracado em um porto, segundo o exército ucraniano, o que demonstrou a vulnerabilidade de um modelo de embarcação militar prestigiado na época da Guerra Fria.

Uma das principais prioridades tanto para a Ucrânia quanto para a Rússia são os drones de visão em primeira pessoa. Em ambos os lados, esses equipamentos são responsáveis pela maioria das baixas militares. Moscou tem se concentrado na produção em escala de alguns sistemas eficazes. Kiev tem enfrentado dificuldades com a produção, mas conta com uma vasta gama de novos projetos.

Mais de 2 mil startups de tecnologia militar estão ativas na Ucrânia hoje, de acordo com o Brave1, um fundo criado pelo Ministério da Transformação Digital para investimentos em defesa. Algumas empresas surgiram dentro das forças armadas, começando como oficinas improvisadas para produção de drones.

No ano passado, o investimento estrangeiro direto em empresas de defesa ucranianas subiu para cerca de US$ 100 milhões, ante US$ 40 milhões em 2024, de acordo com o chefe de relações com investidores da Brave1, Artem Moroz. Cerca de 80 empresas captaram recursos em mercados de capitais, afirmou ele.

PARCERIAS INTERNACIONAIS. O dinheiro público também é uma fonte de financiamento para a indústria de defesa na Ucrânia. Pelo menos seis países europeus, liderados pela Dinamarca, estão investindo em empresas ucranianas.

Esses investimentos às vezes beneficiam também empresas contratadas no país. A Estônia financia empresas ucranianas se pelo menos 30% dos componentes de seus produtos forem de fabricação estoniana.

Em outro modelo de negócios, empresas estrangeiras fazem parcerias com empresas ucranianas em bases geralmente não monetárias, trocando tecnologia por acesso ao campo de batalha e pela possibilidade de soldados ucranianos testarem seus produtos em combate. A Shield AI, uma empresa com sede em San Diego, nos EUA, coopera com a Iron Belly, uma empresa sediada em Lviv, no oeste da Ucrânia, que fabrica drones explosivos de asa fixa.

As rodadas de financiamento nem sempre são divulgadas publicamente. “Nos EUA e na Europa, sempre que alguém levanta fundos, quer muita publicidade”, disse Moroz, da Brave1. “Na Ucrânia, as empresas preferem manter-se discretas”, porque suas fábricas são alvos prioritários para os mísseis russos.

Antes da guerra, a indústria de tecnologia da Ucrânia já havia alcançado um sucesso internacional extraordinário. Entre seus destaques estavam o Grammarly, uma ferramenta de escrita, e a Ring, uma empresa de campainhas com vídeo e segurança residencial que a Amazon comprou em 2018 por cerca de US$ 1 bilhão. Tecnologia da informação era o terceiro maior produto de exportação da Ucrânia até a invasão de 2022, atrás da metalurgia e dos produtos agrícolas.

No mês passado, a Axon Enterprises, uma fabricante de armas de eletrochoques com sede no Estado americano do Arizona, anunciou um investimento na Fourth Law, de Azhniuk. O valor da transação não foi divulgado.

SEM CULPA. Azhniuk não demonstrou nenhum remorso por criar um programa de computador projetado para tomar decisões sobre vida e morte automaticamente. Segundo o empreendedor, reduzir parcialmente a participação humana na equação “não é tão assustador quanto parece”. “Os drones são georreferenciados, o que significa que atacarão apenas dentro de uma zona designada. Isso tem como objetivo impedir que o drone ataque um civil ou retorne para o soldado que o lançou. Nós poderíamos, literalmente, nos autodestruir por adiar o uso de inteligência artificial em armamentos”, afirmou o empreendedor. •

“Nós fabricávamos câmeras que atiravam petiscos para bichos de estimação e agora fabricamos câmeras que atiram explosivos”

Yaroslav Azhniuk

Empreendedor ucraniano

“Nos EUA e na Europa, sempre que alguém levanta fundos, quer muita publicidade. Na Ucrânia, as empresas preferem manter-se discretas (para evitar ataques russos)”

Artem Moroz

Fundo Brave1, criado pelo Ministério da Transformação Digital da Ucrânia

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