O Estado de S. Paulo

BMW M135 xDrive é a prova de que nem todo carro precisa ser um SUV

Com 317 cv, tração integral e 0 a 100 km/h em 4,9 segundos, novo Série 1 reacende prazer dos hatches médios esportivos em uma era dominada por utilitários-esportivos

MARCUS CELESTINO

Há algo quase subversivo em um hatch médio esportivo. Em um mercado que transformou praticamente qualquer desejo automotivo em SUV, crossover ou “aventureiro urbano” com molduras plásticas, o novo BMW M135 xDrive chega como aquele personagem que entra no filme errado e, justamente por isso, salva a cena.

No entanto, engana-se quem pensa que ele é o único protagonista de sua seara. O esportivo tem preço sugerido de R$ 459.950 e um rol de rivais que inclui Honda Civic Type R (R$ 430.500), Toyota GR Corolla Circuit (R$ 461.900) e Volkswagen Golf GTI (R$ 430 mil).

O M135 é baixo, tem balanço traseiro (distância entre o eixo traseiro e o fim da carroceria) curto, 317 cv e duas saídas duplas de escape. Em outras palavras, é um hot hatch de verdade.

A quarta geração do BMW Série 1 rompe de vez com qualquer nostalgia purista. O tempo do hatch de tração traseira ficou para trás. O M135 usa motor dianteiro transversal, tração integral sob demanda e câmbio automatizado de dupla embreagem. No entanto, seria injusto tratá-lo apenas como uma concessão ao mercado. O carro pode ter mudado, mas ainda anda muito.

Quarteto explosivo

BMW M135 reforça o time de esportivos, ao lado de Civic Type R, GR Corolla Circuit e Golf GTI

O motor é o 2.0 turbo a gasolina, de quatro cilindros e injeção direta. Entrega 317 cv a 5.750 rpm e 40,8 kgfm a 2 mil rpm. Com 1.550 kg, o M135 xDrive não é exatamente um peso-pena (a relação peso/potência é de 4,89 kg/cv), mas compensa com força, aderência e rapidez de respostas.

A tração xDrive é peça central nessa mudança. Ela ajuda a transformar torque em movimento sem drama. Saídas de curva, retomadas e acelerações fortes são acompanhadas por uma sensação de tração constante, quase como se o carro estivesse sempre um passo à frente da perda de aderência.

O 0 a 100 km/h em 4,9 segundos diz bastante, mas não conta toda a história. Mais importante é a maneira como o BMW entrega esse desempenho. O M135 pouco hesita e é dono de uma base dinâmica que passa confiança para explorar o conjunto.

O que mais impressiona é a estabilidade. A suspensão adaptativa dá ao M135 uma capacidade rara de mudar de humor sem parecer artificial. Em uso normal, até permite que o hatch cumpra o papel de carro premium para o dia a dia, mas é na estrada que ele brilha.

Quando o ritmo aumenta, a carroceria fica mais controlada, os movimentos laterais diminuem e o carro passa a transmitir aquela sensação boa de estar “aparafusado” ao asfalto. É firme, mas não seco; esportivo, mas não punitivo. Um equilíbrio difícil, especialmente em um hatch com rodas de 19 polegadas e pneus 235/40.

Há, claro, um preço a pagar. Rodas de 19” e pneus de perfil baixo costumam ser pouco indulgentes em pisos ruins. Todavia, esse é o contrato de um hatch médio esportivo.

PRECISÃO NAS RESPOSTAS. A direção é um ponto de destaque. Direta, rápida e extremamente comunicativa, traduz para as mãos do motorista o que acontece entre pneus e piso.

No M135 xDrive, as respostas vêm com precisão e peso bem calibrado, o que ajuda a posicionar o carro com confiança em curvas rápidas e mudanças de direção. O câmbio de sete marchas e dupla embreagem também combina com essa personalidade. Em modo automático, trabalha para manter o motor na faixa ideal de torque; nas aletas, permite uma condução mais envolvente, ainda que filtrada pela eletrônica.

Visualmente, o carro tenta se distanciar do Série 1 “comum” sem cair no cosplay de pista. A dianteira tem faróis afilados, grade com barras verticais e diagonais, entrada de ar inferior ampla e a iluminação BMW Iconic Glow. A traseira é mais explícita, com spoiler, lanternas que avançam sobre a tampa e quatro saídas de escape.

O capô relativamente longo, os balanços curtos e a postura mais baixa dão ao M135 xDrive uma presença que não depende só de adereços esportivos. É um desenho mais musculoso do que extravagante.

Há um cuidado parecido no interior. A cabine evita aquele exagero de esportividade cenográfica, com fibra de carbono fake por todos os lados e botões vermelhos gritando por atenção. Os bancos em formato de concha e bom apoio lateral ajudam a criar ambiente esportivo sem abandonar o conforto. Há ainda o BMW Curved Display, formado por tela de 10,25” para o quadro de instrumentos e 10,7” para a central multimídia.

No Brasil, o M135 xDrive é um lembrete de que ainda existe vida além da posição de dirigir elevada. Mostra que um hatch pode ser prático, refinado, bonito, rápido e desejável sem precisar vestir a fantasia de utilitário-esportivo. Em resumo, um carro para quem gosta de dirigir, e que não tenta agradar ao algoritmo do mercado. •

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