O avanço das universidades chinesas
Instituições do país crescem em rankings de publicações acadêmicas
MARK ARSENAULT
Até recentemente, Harvard era a universidade de pesquisa mais produtiva do mundo, segundo um ranking global que analisa publicações acadêmicas. Recentemente, caiu para o terceiro lugar. E as escolas que têm subido não são suas congêneres americanas, mas universidades chinesas.
A reordenação ocorre no momento em que a gestão Donald Trump vem cortando o financiamento para pesquisa em escolas americanas, que dependem fortemente do governo federal para pagar por empreendimentos científicos.
Não foram as políticas do presidente Trump que deram início ao declínio relativo das universidades dos EUA – que começou há anos –, mas elas podem acelerá-lo. “Há uma grande mudança chegando, uma espécie de nova ordem mundial no domínio global do ensino superior e da pesquisa”, disse Phil Baty, diretor de assuntos globais da Times Higher Education, organização britânica que produz um dos mais conhecidos rankings mundiais de universidades.
Educadores e especialistas dizem que a mudança é um problema não só para as universidades americanas, mas para o país como um todo. “Há um risco de que a tendência continue e de um potencial declínio”, disse Baty. “Eu uso a palavra ‘declínio’ com muito cuidado. Não é como se as escolas americanas estivessem ficando visivelmente piores, é apenas a competição global: outros países estão progredindo mais rapidamente.”
PRODUÇÃO. Se olharmos para o Leiden Rankings, ranking global de universidades do Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda, do início dos anos 2000, sete instituições americanas estariam entre as dez melhores, lideradas por Harvard. Só uma chinesa, a Universidade de Zhejiang, estaria entre as 25 melhores.
Hoje, Zhejiang ocupa o primeiro lugar nessa lista, baseada na produção científica (artigos publicados em revistas especializadas). Outras sete instituições chinesas estão entre as 10 melhores.
Harvard produz significativamente mais pesquisas agora do que há duas décadas, mas mesmo assim caiu para o terceiro lugar. E é a única universidade americana que ainda está perto do topo da lista. E ainda é a primeira no ranking de Leiden para publicações científicas altamente citadas.
Outras seis escolas americanas proeminentes que estariam entre as 10 melhores na primeira década dos anos 2000 – a Universidade de Michigan; a da Califórnia, em Los Angeles; a Johns Hopkins; a de Washington, em Seattle; a da Pensilvânia e a de Stanford – estão produzindo mais pesquisas do que há duas décadas, segundo os cálculos de Leiden.
Mas a produção das instituições chinesas aumentou muito mais. Conforme Mark Neijssel, diretor de serviços do Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia, o ranking de Leiden leva em consideração artigos e citações contidos no
Web of Science, um banco de dados de publicações acadêmicas de propriedade da Clarivate, uma empresa de dados e análises. Milhares de revistas acadêmicas estão representadas nos bancos de dados, muitas das quais são altamente especializadas, disse ele.
TENDÊNCIA. Os rankings globais de universidades geralmente não atraem muita atenção popular nos EUA. Mesmo assim, alguns acadêmicos experientes têm visto o reflexo do crescimento na produção de pesquisas da China nos rankings. E alertam que os EUA estão ficando para trás.
Rafael Reif, ex-presidente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, disse em um podcast no ano passado que “o número e a qualidade dos artigos provenientes da China são excelentes” e estão “superando o que estamos fazendo nos Estados Unidos”.
Por outro lado, instituições de outros países têm visto suas posições nos rankings globais tanto como proeza acadêmica quanto como progresso em ultrapassar os EUA. A Universidade de Zhejiang exibe suas colocações em rankings com destaque em sua página da web e lista entre os marcos de sua história o fato de ter entrado no top 100 global em 2017.
O centro em Leiden começou, recentemente, a produzir um ranking alternativo baseado num banco de dados acadêmico diferente, o OpenAlex. Harvard é a número 1 nessa lista, mas a tendência é a mesma: 12 das 13 escolas seguintes na lista alternativa são chinesas. “A China está realmente construindo muita capacidade de pesquisa”, disse Neijssel. Ao mesmo tempo, segundo ele, os pesquisadores chineses estão dando mais ênfase à publicação em revistas em inglês, que são mais lidas – e citadas – em todo o mundo.
Num discurso em 2024, o presidente da China, Xi Jinping, elogiou os avanços de seu país em áreas como tecnologia quântica e ciência espacial. Ele citou uma descoberta de pesquisadores do Instituto de Biotecnologia Industrial de Tianjin, que desenvolveram um método para sintetizar amido a partir de dióxido de carbono em laboratório, o que poderia levar as indústrias a produzir alimentos a partir do ar, sem a necessidade de hectares de plantações dependentes de terra, irrigação e colheita.
Outros sistemas de classificação que são ponderados em relação à produção científica refletem uma mudança semelhante em direção às instituições chinesas. Harvard é a
“Há um risco de que a tendência continue e de um potencial declínio. Uso a palavra ‘declínio’ com cuidado. Não é como se as escolas americanas estivessem ficando visivelmente piores, é apenas a competição global: outros países estão progredindo mais rapidamente”
Phil Baty
Diretor de assuntos globais da Times Higher Education, um dos mais conhecidos rankings
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