O Estado de S. Paulo

Quadras de tênis viram símbolo de luxo em prédios de alto padrão

Incorporadoras buscam terrenos maiores para incluir item, aumentando o valor e a atratividade dos empreendimentos

BRENO DASMASCENA

Desejadas por clientes endinheirados e negociadas a peso de ouro por corretores imobiliários, as quadras de tênis ganharam status de luxo em empreendimentos de alto padrão. Em meio a uma acirrada disputa por terrenos em grandes centros urbanos, as incorporadoras passaram a buscar áreas maiores, mudar projetos e investir alto para incorporar o item de lazer.

Dados da consultoria Brain Inteligência Estratégica indicam que o número de novos lançamentos com quadras de tênis em São Paulo subiu de 7, em 2020, para 25, em 2025 – ou quase quatro vezes mais. O item está presente em 27% dos empreendimentos de luxo e superluxo lançados na capital paulista desde 2020.

O avanço caminha na esteira do aumento de praticantes do esporte globalmente. Segundo o relatório da International Tennis Federation de 2024, mais de 106 milhões de pessoas praticam o esporte regularmente, um avanço de 22% em relação ao relatório anterior, publicado em 2021. Na América do Sul, são 8,8 milhões de jogadores.

O aumento na popularidade, porém, contrasta com os desafios financeiros e de espaço para a prática: as quadras são um ativo disputado. “Não é fácil de praticar. Mesmo quem é sócio de um clube tem dificuldade para conseguir um horário”, diz Victor Saad, diretor comercial da incorporadora Trisul.

“É essa escassez que faz com que esse item de lazer agregue tanto valor aos condomínios”, acredita Saad.

Desde 2024, a Trisul lançou quatro projetos com quadras de tênis, em bairros como Moema, Pinheiros e Vila Mariana. “Decidimos que todos os nossos condomínios de alto padrão contariam com esse diferencial e passamos a comprar apenas terrenos acima de 2,6 mil metros quadrados.”

Antes disso, o tamanho mínimo dos terrenos procurados pela companhia era de 1,6 mil m², ressalta o executivo. “Tentamos adicionar a quadra sem abrir mão de outros itens de lazer”, diz. “Se o comprador pratica o esporte e tem dinheiro, ele não vai se interessar por um prédio que não tenha uma quadra.”

GRANDES TERRENOS. Entregue em janeiro deste ano no Brooklin, na zona sul da cidade de São Paulo, o Arkadio EZ by Ott Brooklin é fruto desse ambiente. Com apartamentos de 105 m² a 180 m², o projeto apresenta como um dos diferenciais uma quadra de tênis de saibro com tamanho oficial. O item ocupa uma área de 648 metros quadrados em um terreno com 4.942 m² de área total.

Entregue no início do ano, o Arkadio teve apartamentos negociados de R$ 1,7 milhão a R$ 3 milhões.

De acordo com Tellio Totaro Jr., superintendente executivo de incorporação da Eztec, incorporadora responsável pelo projeto, a inovação atende aos anseios dos próprios clientes. “Ouvimos potenciais compradores que topavam até migrar para

“Não posso afirmar que o preço do metro quadrado aumenta, mas você amplia a quantidade de pessoas interessadas e a liquidez”

Tellio Totaro Jr.

Superintendente executivo de incorporação da Eztec

um bairro vizinho caso tivesse quadra de tênis”, diz. “Não posso afirmar que o preço do metro quadrado aumenta, mas você amplia a quantidade de pessoas interessadas e a liquidez.”

Desde 2021, a Eztec lançou pelo menos sete projetos com quadras de tênis – alguns deles, em parceria com a Lindenberg. “A grande dificuldade mesmo é o terreno. Precisamos de uma área de pelo menos 4 mil metros para criar uma quadra.”

A Lindenberg, por sua vez, apresentou no fim de 2025 um edifício que tenta lidar com essa dificuldade espacial. O Lindenberg Moema incorporou uma quadra de tênis de tamanho oficial em uma estrutura na cobertura das outras áreas comuns. Os apartamentos custam de R$ 14 milhões a R$ 16 milhões.

Também em Moema, a Mitre Realty lançou dois projetos com quadra de tênis nos últimos dois anos. O diferencial da quadra de tênis, segundo Rodrigo Cagali, vice-presudente de Operações da empresa, passa pelo equilíbrio entre viabilidade financeira e estratégia de produto.

BOLHAS. À medida que o público se interessa mais pelas quadras de tênis, a tendência é de que o item se torne mais comum nos condomínios. Segundo Paula Santoro, professora de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, esse tipo de diferencial traz exclusividade aos moradores, mas tem prazo de validade.

“A quadra de tênis, assim como a sala de ginástica, o pet play e a churrasqueira, são diferenciais que fizeram o metro quadrado ser vendido mais caro. Porém, quando todo mundo começa a colocar os mesmos itens, como a academia, eles deixam de ser um diferencial”, diz.

Esse tipo de empreendimento também não colabora com a cidade, diz a urbanista. Ela diz acreditar que a formação de “condomínios-clube” cria bolhas, alheias ao restante da comunidade. “Quem está no condomínio não sai para fazer compras, não sai para ir ao clube ou usar a academia de ginástica fora do condomínio”, diz. “A quadra de tênis é o ícone de um processo em que os condomínios se tornam um pedaço exclusivo à parte da cidade”, afirma a especialista. •

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2026-03-04T08:00:00.0000000Z

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