Paris é o epicentro da reação dos países europeus contra o Airbnb
Aplicativo de hospedagem de curto prazo enfrenta restrições regulatórias em muitas cidades do continente; moradores locais acusam empresa de expulsá-los de seus bairros
Numa manhã chuvosa em Paris, um pequeno grupo de funcionários da prefeitura da cidade sobe uma rua íngreme e estreita no bairro histórico de Montmartre, acompanhados pela reportagem, com a Basílica de Sacré-Coeur imponente ao fundo. O grupo para em frente a um prédio de apartamentos que parece igual a qualquer outro no quarteirão. É somente ao passarem pelo hall de entrada que algo parece incomum. Placas coladas nas paredes anunciam a proibição de barulho e encontros noturnos. E muitas das portas de entrada têm cofres de metal parafusados, com as chaves dos apartamentos dentro. Ambos são sinais reveladores de que os funcionários da prefeitura encontraram o que procuravam: Airbnbs ilegais.
Durante a meia hora seguinte, enquanto subíamos as escadas e batíamos nas portas, alguns moradores sonolentos apareceram para reclamar – não de nós, mas para nós. Descreveram como o prédio começou a parecer um albergue para viajantes, com malas de rodinhas batendo no calçamento a qualquer hora, e o pátio externo se transformando numa taverna barulhenta nas noites quentes. “Um verdadeiro inferno”, disse um deles.
Essas modestas casas em Montmartre são apenas um dos focos de tensão nas crescentes reações negativas contra o Airbnb na Europa. Mesmo com o aluguel de imóveis por temporada se tornando uma prática comum em viagens internacionais, cada vez mais cidades ao redor do mundo culpam a empresa e seus concorrentes pela escassez de moradias e pela crise de preços acessíveis.
Nos destinos europeus, e em Paris em particular, essa oposição ganhou força. As restrições da capital francesa estão entre as mais rígidas, limitando drasticamente o número de noites que qualquer imóvel pode ser alugado por temporada. Os proprietários dos apartamentos em Montmartre podem enfrentar multas bem acima de ¤ 100 mil se for comprovado que violaram a lei.
“As pessoas estão comprando imóveis, se tornando uma espécie de hoteleiros, desenvolvendo esses negócios que estão tirando apartamentos do mercado local”, desabafa a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, durante almoço no elegante salão de jantar da prefeitura. Anne, cujo mandato terminou em março, descreve como ela, juntamente com os prefeitos de Barcelona e Roma, passou anos pressionando a União Europeia, composta por 27 países, a reprimir o Airbnb.
REGISTRO. A partir de maio, uma nova lei da UE exigirá que os anfitriões registrem seus imóveis num banco de dados europeu, a fim de permitir que as cidades verifiquem rapidamente os anúncios que suspeitem violar as leis locais. “O problema não é só Paris”, acrescenta Anne. “É toda a Europa.”
O Airbnb assumiu o papel de vilão nesta saga, já que domina o mercado, com cerca de 44% do setor de aluguéis de curta duração em 2024, segundo a empresa de dados de viagens Skift Research. Existem cerca de 9 milhões de anúncios do Airbnb no mundo todo, e Paris estima em torno de 75 mil aluguéis turísticos de curta duração em sua região metropolitana.
Quando três amigos na casa dos vinte anos lançaram o Airbnb em 2008, a vilania estava longe de ser o destino que previam. Eles haviam apresentado sua startup como uma forma descontraída para estranhos se conectarem: a ideia surgiu quando colocaram colchões infláveis no chão do apartamento deles em São Francisco e começaram a cobrar para que as pessoas dormissem neles. “Naquela época, 100% das pessoas eram mais do que céticas”, conta o cofundador e diretor de estratégia Nathan Blecharczyk. “Elas rejeitaram a ideia quase que veementemente, dizendo: ‘Como você pode confiar em um estranho na sua casa?’”
O mundo se acostumou com a ideia, é claro, e agora o Airbnb é uma empresa da lista Fortune Global 500, com um valor de mercado de quase US$ 80 bilhões e anúncios em cerca de 200 países. No ano passado, foram registradas 121,9 milhões de reservas, gerando uma receita de US$ 12,2 bilhões, um aumento em relação aos US$ 11 bilhões do ano anterior. Há dicionários em inglês que incluem o verbo “to Airbnb” como sinônimo de “alugar um imóvel por curta duração” – um termo que engloba todo o negócio que a empresa inventou.
Mesmo assim, o preço das ações do Airbnb está cerca de 10% abaixo do valor da época em que a empresa abriu seu capital em 2020 – e os investidores acreditam que a resistência local é um obstáculo real ao seu crescimento. A empresa rejeita veementemente a ideia de ser
Presença Existem cerca de 9 milhões de anúncios do Airbnb no mundo todo, e Paris estima ter 75 mil desses aluguéis
culpada por qualquer escassez de moradias: o Airbnb “simplesmente não tem impacto significativo nos preços dos imóveis”, afirma Blecharczyk. Ainda assim, para seus executivos e investidores, a questão agora é o quanto precisarão mudar sua estratégia daqui para frente – ou se o modelo que transformou a empresa em um gigante do setor de viagens poderá perdurar.
Como escreveu Lawrence Nga, analista de ações da Motley Fool, no ano passado: “O risco mais significativo do Airbnb a longo prazo não é a concorrência. É a regulamentação.” •
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