Mostra e livros narram formação do gênio Machado de Assis
Ocupação exibe cartas, fotos, documentos e manuscritos no Itaú Cultural; editora Todavia lança caixa com todos os textos do escritor
UBIRATAN BRASIL
Ao mesmo tempo que se consagrou como autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, um dos clássicos da literatura brasileira que ainda continua original, terrível e divertido, Machado de Assis (1839-1908) tinha predileção pelo xadrez, participando de torneios e escrevendo sobre o assunto.
E, se seu texto ardiloso ainda deixa o leitor em dúvida se Capitu traiu ou não Bentinho no romance Dom Casmurro, o Bruxo do Cosme Velho (alcunha dada a Machado) manteve uma atuação como servidor público por mais de 40 anos, tratando de questões fundamentais para o País, além de ter atuado como censor do Conservatório Dramático Brasileiro.
Como as duas faces de uma moeda, a carreira consagrada do escritor e a vida reservada e pacata do homem inspiram dois importantes projetos dedicados a Machado de Assis. De um lado, uma coleção lançada pela editora Todavia que reúne 26 volumes entre poesia, teatro, conto e romance com tudo o que ele escreveu e publicou em livro.
De outro, a Ocupação Machado de Assis, que vai exibir, no Itaú Cultural, em São Paulo, cerca de 100 peças, entre antigas fotografias, manuscritos originais, cartas, exemplares de sua obra e de seus escritores favoritos e primeiras edições de livros. O lançamento oficial dos dois projetos acontece no sábado, dia 18.
“Machado não nasceu pronto. Ele se tornou Machado de Assis, contando sem dúvida com um talento, uma sensibilidade e uma inteligência raras, mas também por meio de muito trabalho, de um aperfeiçoamento e domínio crescentes das técnicas da escrita”, comenta Hélio de Seixas Guimarães, professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, pesquisador do CNPq e especialista na obra do escritor. Ele participou da organização dos dois projetos.
Neste primeiro momento, os livros que compõem a coleção só poderão ser adquiridos por meio de uma caixa especial, com tiragem limitada. A partir do primeiro semestre de 2024, os títulos serão comercializados separadamente. Há também um volume extra, Terras, testemunho de seu trabalho como servidor público, função que exerceu por mais de quatro décadas.
Publicar, de uma vez só, todos os livros que Machado de Assis escreveu e editou ao longo de sua vida mantendo a sua dicção permite identificar sua formação como autor, acredita Seixas. “Memórias Póstumas, por exemplo, lançado em 1881 e aclamado como sua grande obra, é o décimo quarto livro e o quinto romance de Machado, ou seja, está no meio do caminho de uma escrita cuja técnica foi muito exercitada antes.” •
Coleção Obra do autor de ‘Dom Casmurro’ está disponível em 26 volumes de poesia, teatro, conto e romance
Machado de Assis autor descrevia as características da sociedade brasileira e deixou em suas páginas um fiel retrato historiográfico da formação do Brasil. “Machado traz figuras clássicas em sua obra para fazer uma crítica do Brasil do século 19”, comenta o professor Hélio de Seixas Guimarães, um dos responsáveis pela edição da obra completa do escritor e pela mostra a ele dedicada pelo Itaú Cultural.
Outro assunto essencial tratado na coleção é a questão racial na obra de Machado. “No século 20, criou-se a teoria errônea de que ele evitava o assunto, reflexo de uma sociedade que jogava a discussão para debaixo do tapete”, observa Paulo Dutra, professor na Universidade do Novo México (EUA) e autor das notas de rodapé sobre o tema.
Segundo Dutra, Machado tinha a literatura como primeiro compromisso. “Mas a questão racial surge de forma implícita e também explícita. Um exemplo do primeiro caso está no conto A Mulher Pálida, a história de um rapaz que procura a mulher mais pálida do mundo para se casar, uma sátira à eterna obsessão brasileira pela branquitude europeia.”
Já exemplos mais explícitos aparecem tanto na violência física e simbólica sofrida pelo moleque Prudêncio em Memórias Póstumas como na discussão sobre como a escravidão era elemento de manobra, em Memorial de Aires.
Dutra traça um curioso paralelo entre a forma como Machado lidava com o assunto e a escrita de Lima Barreto, que, a partir da adoção de um estilo seco e direto, lutava para que a literatura fosse um meio de levar ao homem comum a mensagem de sua libertação e um estímulo para continuar lutando para o reconhecimento de todos os seus direitos fundamentais.
O embranquecimento de Machado, tema urgente dos últimos anos, também está na pauta na exposição que vai abrir no Itaú Cultural. A convite da entidade, Marina Amaral, colorista digital especializada em adicionar cores a fotografias históricas em preto e branco, trabalhou em imagens de Machado de Assis.
Apresentadas em uma espécie de colagem animada em vídeo, as imagens demonstram a negritude do escritor como parte dos movimentos que se contrapõem ao processo de branqueamento por que passou a figura do escritor.
IMPASSES.
Encontram-se ainda primeiras edições de suas obras, como a peça Desencantos: Fantasia Dramática, lançada em 1861. Foi o primeiro texto publicado por ele e, embora a peça não tenha sido encenada à época, há indícios de boa recepção ao texto na época.
“Estamos diante de narrativas orgânicas, de textos que bem sustentam impasses, que armam debates não estabilizados, livram-se de obviedades, desmontam frases feitas e, de modo irônico, desdenham de questões absolutas”, observa Jader Rosa, superintendente do Itaú Cultural. Outro destaque são cópias de traduções literárias, como a de Oliver Twist, de Charles Dickens, publicada de maneira anônima em 1870.
Um fundador – assim o crítico literário americano Harold Bloom classificou Machado de Assis, colocando-o ao lado de outros nomes decisivos para a evolução da escrita, como o francês Gustave Flaubert, o português Eça de Queirós, o argentino Jorge Luis Borges e o italiano Italo Calvino. Todos considerados por Bloom como “ironistas trágicos”. •
Ocupação Machado de Assis. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149. Terça a sábado, das 11h às 20h; domingos e feriados, das 11h às 19h. Grátis. Abertura no dia 18/11. Até 4/2/2024
CULTURA & COMPORTAMENTO
pt-br
2023-11-16T08:00:00.0000000Z
2023-11-16T08:00:00.0000000Z
https://digital.estadao.com.br/article/282020447023949
O Estado