Para reflorestar, pequeno produtor recebe bônus
Projeto da ONG TNC com o Mercado Livre paga R$ 300 por hectare de Mata Atlântica recuperado em SP, MG e RJ
LUIS FILIPE SANTOS
“A maioria dos nossos projetos ambientais é voltada para restauração, porque ativa a economia dos municípios” Laura Motta
Mercado Livre
“Proprietários não vão querer reflorestar se não trouxer um lucro” Thales Guedes Ferreira
Produtor rural de Cruzeiro (SP)
Um projeto realizado por 160 pequenos produtores rurais, pela ONG The Nature Conservancy (TNC) e pelo Mercado Livre pretende regenerar 2.717 hectares de Mata Atlântica na Serra da Mantiqueira, em uma área que se estende pelos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio. A iniciativa começou em 2021 e também visa à geração de créditos de carbono.
O projeto utiliza o conceito de pagamento por serviços ambientais (PSA). Cada integrante receberá R$ 300 por hectare de floresta restaurado por ano nos primeiros dez anos. Nesse período, duas “colheitas de créditos” devem ser realizadas, nos anos cinco e dez.
Dos créditos que forem gerados nessa década, 80% será do Mercado Livre, para pagar o investimento inicial da companhia em tornar o projeto possível e como forma de compensação pelo impacto ambiental das operações; os 20% restantes poderão ser negociados livremente pelos produtores. Nos 30 anos seguintes, os produtores terão 100% dos créditos à disposição.
A Mata Atlântica é o bioma mais devastado do Brasil, com apenas 24% de sua cobertura original ainda existente. Também é onde se concentram os principais centros urbanos brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, cerca de 80% do PIB e a demanda por recursos naturais como água, de acordo com dados da ONG SOS Mata Atlântica. Por essas razões, foi o bioma escolhido pelo Mercado Livre e pela TNC.
Após o Mercado Livre iniciar o projeto para entender como a restauração florestal pode servir para mitigar os impactos de uma empresa, a TNC pensou no formato. “Tivemos liberdade de desenhar o projeto e chegar a um bom modelo”, comenta Adriana Kfouri, diretora do projeto de restauração na Mantiqueira da TNC Brasil.
A fase seguinte foi atrair donos de pequenas propriedades na área determinada, até chegar aos 2.717 hectares. Segundo Adriana, foram muitas visitas a locais como associações de produtores, sindicatos rurais, igrejas e cooperativas, e o sucesso foi possível devido a contatos de projetos anteriores.
“Temos atuação de muitos anos, muito consolidada no território. É necessário confiança entre todos os atores, porque todo mundo tem medo de assinar um projeto de longo prazo”, explica.
INVESTIMENTO.
Segundo o Mercado Livre, foram investidos R$ 7 milhões desde o início do projeto – R$ 1,3 milhão em pagamentos aos produtores e o restante em equipamentos e outros itens necessários para a restauração florestal, como sementes, e no monitoramento e certificação.
“A maioria dos nossos projetos ambientais é voltada para restauração, porque fomenta geração de renda e ativa a economia dos municípios. Sabemos do potencial que a restauração tem de gerar renda e bem-estar”, cita Laura Motta, gerente sênior de sustentabilidade do Mercado Livre.
Para os participantes do projeto, o dinheiro recebido pelo PSA e os créditos de carbono são importantes, mas também há benefícios para suas propriedades. “Percebemos a paisagem completamente diferente, como tudo mudou. Vemos melhoras no clima, na biodiversidade da propriedade, na produção de alimentos”, cita Thales Guedes Ferreira, da cidade de Cruzeiro (SP).
Thales trabalha com agroflorestas há alguns anos, e seu sítio produz desde frutas “comuns”, como pera, tangerina e abacate, a frutas típicas da Mata Atlântica, como cambucá, bacupari, grumixama, uvaia e araçá. Porém, como ele mesmo define, uma agrofloresta é como um filme, em que diferentes cenas vão passando, e nas próximas, ele pretende plantar café e palmito juçara.
Thales vê que o PSA facilita muito para atrair participantes para o projeto. “Ninguém consegue fazer restauração sozinho. Alguns proprietários não vão querer realizar se não trouxer um lucro ou alguma coisa que possa contribuir”, avalia. •
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2024-08-20T07:00:00.0000000Z
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