‘As pessoas precisam investir em empresas, não na Bolsa’, afirma gestor
Um dos maiores gestores de ações do País explica o que observar com juros altos e empresas mais pressionadas
MARÍLIA ALMEIDA
Na avaliação do gestor da Constellation, Florian Bartunek, uma empresa de qualidade é a que tem caixa, porque o juros no Brasil são muito altos. Bartunek é conhecido por sua visão de longo prazo e seguidor da filosofia do megainvestidor Warren Buffett.
“Os juros de 14% ao ano é o que o governo paga. Uma empresa paga muito mais do que isso. A reforma tributária prejudicou o capital de giro”, diz Bartunek, um stock picker, profissional especializado em analisar e selecionar ações de empresas. E ele explica onde investir em um cenário de juros elevados, que pressiona o caixa de muitas companhias e aumenta o risco de surpresas negativas para os investidores.
Manter o olho no cliente é ponto fundamental para uma empresa de qualidade. Um time de gestão que é dono ou pensa como dono, uma boa governança, foco no acionista e padrões éticos elevados completam a lista de características que fazem uma empresa ter qualidade.
“Ninguém construiu uma grande fortuna só ficando na renda fixa. Você tem que correr algum risco. Teve gente que escolheu investir no Banco Nacional e quem aplicou no Itaú. Quem escolheu o Banco Nacional perdeu tudo, porque o banco quebrou. E quem escolheu o Itaú fez uma fortuna no mercado de ações.”
Para quem não deseja ter muito trabalho, Bartunek recomenda aplicar no Ibovespa, mas ressalta que o índice é uma “caixa-preta”. “Você não sabe bem o que tem lá dentro.” Ou seja, para ele o mais indicado é investir em empresas de melhor qualidade, que consigam dar resultados melhores no longo prazo.
QUALIDADE.
Mas investir em empresas de qualidade está longe de se resumir a comprar ações e deixar no portfólio de forma indefinida. É cada vez mais comum que fundos ativos mudem suas posições com maior frequência, especialmente por conta de mudanças tecnológicas. Isso porque essas alterações permitem que novos competidores cresçam rápido. É o caso do Mercado Livre em relação a varejistas nacionais, como Magazine Luiza, e do Nubank em relação aos bancos tradicionais, como o Itaú.
Em resumo, ser investidor de Bolsa está mais difícil porque não existe mais uma “vaca sagrada”. O investidor não pode pensar que ninguém pode ameaçar o Itaú porque pode surgir um Nubank.
O fundo da Constellation precisou se movimentar recentemente em relação à sua posição em Totvs. No início do ano, as ações do setor de software derreteram globalmente por conta do aumento da percepção de que poderiam ser afetadas pela inteligência artificial. Ou seja, houve o entendimento de que os usuários dos agentes de IA poderiam usá-los para criar seus próprios softwares. A Constellation continua a investir em Totvs, mas adicionou essa incerteza ao cenário e reduziu sua posição na empresa.
“Nosso grande desafio é detectar se os desafios são temporários ou se o modelo de negócio realmente mudou”, afirma o executivo.
“A mudança no comércio eletrônico é estrutural. Ficou mais difícil para as varejistas nacionais competirem com Mercado Livre e Shopee. Já a da Totvs, não. Acredito que a empresa pode auxiliar muitas empresas a lidarem com as mudanças geradas pela reforma tributária e também oferecendo serviços de inteligência artificial.”
Em geral, o gestor considera o Brasil interessante para o investidor de Bolsa porque abriga empresas muito rentáveis em comparação com pares no exterior. No entanto, há menos companhias por setor. Como é essencial ter um balanço robusto no País, muitas vezes o segundo e o terceiro maiores concorrentes acabam se alavancando e ficam em uma posição um pouco mais frágil. Com isso, o mercado se torna cada vez mais concentrado. Nesse cenário, os líderes de cada setor são, portanto, um bom indicativo de qualidade.
Na visão do gestor, esse ambiente complexo e quase hostil cria uma barreira de entrada e uma consolidação do mercado. Quem consegue liderar algum setor é realmente uma empresa vitoriosa e tende a se manter dessa forma se não se alavancar.
PERSPECTIVAS.
Bartunek chama a atenção para a maior baixa de valor de mercado (valuation) das empresas em 20 anos. Ou seja, a Bolsa está barata “de verdade”. Portanto, é uma boa oportunidade para investir em ações, ainda mais considerando que muitas pagam 8% ao ano em dividendos.
Mas ele ressalta que é necessário prezar pela qualidade. As boas empresas continuam indo bem. No portfólio do fundo, isso se resume a 20 companhias. “Não vale a pena apostar em qualquer coisa. Mas, para empresas de qualidade, o preço atual permite aguentar algum desaforo se o mercado piorar.”
Com a eleição presidencial, Bartunek acredita que o ganhador irá tentar atacar a questão fiscal, o que pode fazer com que o mercado se valorize de forma relevante. Ou seja, esse é mais um motivo para se posicionar em ações. •
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2026-07-27T07:00:00.0000000Z
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