Grandes gestores de fundos de investimento já preparam sucessores
Gestoras amadurecem seus posicionamentos e investidores buscam garantias de que o desempenho e a cultura da casa sobreviverão à saída futura dos fundadores
MARÍLIA ALMEIDA
Uma geração de grandes gestores já ultrapassou ou está perto de chegar aos 60 anos de idade. Para o investidor, a pergunta deixa de ser apenas quem entrega retorno hoje e passa a ser quem administra seu patrimônio quando esses nomes saírem de cena.
Em muitas gestoras, boa parte do valor do negócio ainda está concentrada nos sócios fundadores, que acumulam conhecimento sobre a filosofia de investimento, relacionamento com clientes e construção das carteiras. O desafio, portanto, não é apenas garantir a sucessão da empresa, mas também preservar a capacidade de gestão dos fundos, principal fonte de receita dessas casas.
Existem diversas maneiras de encaminhar o tema da sucessão, seja por meio de uma participação societária vinculada ao desempenho, institucionalização das decisões e mecanismos de retenção.
Na Kapitalo, que tem R$ 32 bilhões sob gestão, a fatia na sociedade aumenta ou diminui conforme a alocação diária nos fundos. Um exemplo dessa dinâmica é Bruno Cordeiro, gestor do fundo K10. O executivo tornou-se recentemente o maior sócio da Kapitalo, superando Carlos Woelz e outros fundadores.
Além da ascensão de Bruno Cordeiro como sócio majoritário, a Kapitalo passou recentemente por uma troca no comando executivo. João Carlos Pinho, cofundador da casa ao lado de Woelz, deixou o dia a dia do negócio no fim do ano passado. A função foi assumida por Bernardo Feijó, integrante da sociedade desde 2020: “Profissionalizamos algumas das tarefas mirando os próximos dez anos do negócio”.
Mas, por mais que haja um processo gradual, que reconheça, dê poder político e econômico para novos sócios, se forem formados dois grupos que tenham opiniões diferentes sobre como conduzir o negócio, a chance de ter um problema é grande, conta o gestor da Kapitalo. Para prevenir isso, é importante que também haja uma cultura forte na empresa, de forma a atrair pessoas alinhadas a ela.
INSTITUCIONALIZAÇÃO.
Enquanto a Kapitalo resolveu esse desafio redistribuindo o poder societário ao longo do tempo, outras casas preferem um caminho diferente: institucionalizar o processo de decisão para reduzir a dependência de indivíduos.
Embora Rodrigo Abbud seja o gestor registrado na CVM para todos os fundos imobiliários do Patria, que tem R$ 38 bilhões sob gestão em FIIs, as decisões de investimento são compartilhadas em uma estrutura colegiada.
A governança inclui um comitê de investimentos presidido pelo presidente do Patria e o diretor global de produtos, Daniel Sorrentino, além de Abbud e outros executivos da área. O comitê decide operações relevantes, como compras, vendas e locações de maior impacto para o patrimônio dos fundos.
Abaixo do comitê, os gerentes de portfólio setoriais são os responsáveis pela gestão cotidiana dos fundos, conduzindo negociações, estruturação de dívidas e relacionamento com proprietários. O modelo é inspirado na gestora americana Blackstone.
A estrutura já vem gerando resultados. Abbud destaca o papel de Laurival Neto, que tem 33 anos e toca, há uma década, os fundos de logística. Segundo Abbud, Neto conhece profundamente o histórico de cada ativo, desde os antigos proprietários até as características dos terrenos, acumulando um conhecimento considerado difícil de replicar. Hoje, a vertical de logística é a maior da gestora, e Neto está assumindo a função de gestor diretor, um cargo anterior ao da posição de sócio.
Nem todas as gestoras, porém, têm esse pensamento desde o início. Algumas percebem a importância da sucessão depois de enfrentar problemas internos. Na Neo Investimentos, que tem R$ 3 bilhões sob gestão, cada sócio cuidava de uma área que não se relacionava com as outras. Resultado: quando um deles saiu, a gestora precisou encerrar sua área de operações Long & Short. Posteriormente, o sócio retornou à casa e a área foi reestruturada.
Depois disso, um dos sócios fundadores da gestora, Marcelo Cabral, aponta que chegou a uma estrutura societária flexível que bonifica executivos principalmente por resultados dentro da empresa. Ou seja, não deixa executivos levarem todo o patrimônio com eles caso queiram sair: “O sócio que sai continua recebendo dividendos e tem a missão de garantir a sua sucessão. Se quiser competir com outra empresa, perde o acordo”.
A Neo foi fundada em 2003. Arnaldo Braga Neto entrou na gestora em dezembro de 2024, já como sócio, enquanto Ana Paula Pairol ingressou em dezembro de 2015 e foi convidada posteriormente a integrar a sociedade. Hoje, ambos fazem parte de um grupo de 17 sócios, têm participação crescente na casa e já recebem uma parcela relevante do resultado de suas respectivas áreas de negócio. •
Concentração Em muitas gestoras, boa parte do valor do negócio ainda está concentrada nos sócios fundadores
E-INVESTIDOR
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2026-07-27T07:00:00.0000000Z
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