O Estado de S. Paulo

O fiscal

EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA RIO BRAVO INVESTIMENTOS Gustavo H. B. Franco

Entre os economistas, não há outro assunto. A trajetória das contas fiscais é visivelmente insustentável, conforme 12 entre 10 especialistas, excetuados os “antivax”. A dúvida é sobre como se dá uma crise fiscal, talvez ali, dobrando a esquina, ou não? Será que estamos exagerando? Um dia desses, ouvi de um colega experiente que está reclamando de contas fiscais desarrumadas desde que se formou. Eu me formei em 1986, e também passei muitos anos falando do fiscal (e da inflação). Em 1998, com o acordo com o FMI, e mais uma penca de ajustes anteriores, achei que estava resolvido: o País foi de um primário de menos meio do PIB para positivo 3% em cerca de dois anos.

Só que não.

A solução durou mais de uma década. Com a “Nova Matriz”, o problema voltou, e pior, tal como uma recaída em dependência química, da qual nunca mais saímos.

O primário está hoje onde estava no começo de 1998, o que não parece tão ruim, mas a dívida pública é o dobro, os juros estão na máxima das máximas e todos estão nervosos.

Estamos de volta à “beira do precipício”, não?

Há pelo menos duas maneiras de olhar: A otimista começa observando que há problemas fiscais no mundo inteiro, países até mais endividados que o Brasil, e a vida segue. A economia é “resiliente”, uma palavra que vem do mesmo dicionário de onde tiraram “protagonismo”.

A pessimista admite que já estamos dentro da crise, e que a taxa de juros absurda que vivemos é a exata medida do problema, e mais: vai piorar se o fiscal não se corrigir.

No Brasil, confuso como está, você pode ser otimista e pessimista ao mesmo tempo.

Muitos pensam na crise fiscal como um evento binário, a “dominância fiscal”, uma bomba, um final terrível para a insistência na irresponsabilidade fiscal. Mas não precisa ser assim. O crédito público tende a se deteriorar de forma gradual e modular. O Estado vai perdendo a capacidade de cumprir suas obrigações, vão se acumulando os atrasados, rolos e tensões com fornecedores e com o TCU. Os precatórios vão ficando cada vez maiores, mais ameaçadores, mas todos fingem que não são eventos de “default”.

A crise fiscal não é uma explosão. É mais como um terror sem fim, como a degradação urbana, que vai avançando um quarteirão de cada vez, e vai ficando flagrante com a pichação, os vidros quebrados, as invasões, a informalidade e a criminalidade. Algo parecido se passa no espaço financeiro e do crédito público, tudo vai ficando mais “precarizado”. A crise pode ser um lento deslizar num poço de jeitinhos, puxadinhos e penduricalhos. •

No Brasil, confuso como está, você pode ser otimista e pessimista ao mesmo tempo

ECONOMIA & NEGÓCIOS

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2026-07-26T07:00:00.0000000Z

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