‘Lula sabe que, se não fizer ajuste, pega fogo na mão dele’
Economista afirma que, caso reeleito, presidente vai ter de acertar as contas para governar
JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS Ex-secretário de Política Econômica
Se reeleito, presidente vai ter de acertar as contas para governar, diz o economista.
Economista, foi secretário de Política Econômica e é sócio-fundador da consultoria MB Associados
Na avaliação do economista José Roberto Mendonça de Barros, caso seja reeleito o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá promover algum tipo de ajuste das contas públicas em seu quarto mandato. Sem avançar na questão fiscal, afirma, o governo “já pega fogo na mão dele no primeiro ano”.
Mendonça de Barros avalia que Lula é “pragmático” para entender a necessidade de reorganizar as contas. “Ele é inteligente o suficiente para saber que não vai dar para entrar com esse mesmo discurso distributivista”, afirma. “Acho perfeitamente factível que um quarto governo faça algum ajuste no começo.”
Para o economista, o Brasil precisa superar quatro problemas para voltar a crescer: a deterioração da governança pública e privada, a crença de que o modelo petista gera crescimento sustentável, o desequilíbrio fiscal e a proteção excessiva à indústria nacional.
A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estadão.
Na área fiscal, o ajuste deve ser imediato ou gradual?
O ideal seria algo mais forte, de 3% do PIB. Mas, como ninguém vai acreditar, especialmente num cenário de reeleição e com um Congresso arisco, imagino algo em torno de 2%, para ser efetivamente realizado. Para isso, seria necessário não conceder ganhos reais ao salário mínimo por dois anos e interromper a indexação das despesas de Saúde e Educação. Nesse período, os reajustes seriam apenas pela inflação.
E se o governo for de oposição?
Todo mundo vai acreditar que haverá um ajuste fiscal, que pode ser melhor ou pior. Provavelmente, vão prometer até mais de 2%, mas não sei se conseguirão entregar, porque isso depende das condições políticas. Se for reeleito, Lula estará pensando em como entrará para a história. Ele sabe que será seu último mandato. É extraordinário ter quatro mandatos; nunca tivemos nada parecido. Ele é inteligente o suficiente para saber que não vai dar para manter esse mesmo discurso distributivista. Acho perfeitamente factível que um quarto governo faça algum ajuste no começo. O importante é menos o tamanho do que a credibilidade. Está na mão dele. Acho que vai começar a fazer, porque sabe que, se não fizer,
“Tem de começar a refazer o arcabouço fiscal. Mais importante do que saber o que está dentro ou fora da regra é quanto a dívida pública aumenta para financiar o déficit e rolar a própria dívida”
já pega fogo na mão dele no primeiro ano.
O mercado já antecipa um cenário mais difícil?
Está antecipando isso. Se não houver nada mais relevante, vem a discussão sobre dominância fiscal. Não me parece que Lula não perceba isso. Ele nunca será alguém que acredita nas virtudes de um ajuste fiscal, mas é pragmático e sabe que terá de fazer isso, senão não vai governar.
O que mais deve fazer parte do ajuste?
É preciso revisar os cadastros dos programas sociais. Estão todos estourados, todos furados, e são usados para capturar votos. O INSS mostrou isso. Um exemplo é que existem cerca de 250 mil pescadores artesanais no Brasil, segundo o IBGE, mas 1,4 milhão de pessoas recebem o seguro-defeso. Também é preciso melhorar as regras de governança e reduzir a montanha de emendas parlamentares que, na maioria das vezes, se transformaram em corrupção. Isso terá de ser enfrentado no primeiro ano de governo. E não dá para repetir, no ano que vem, essa brincadeira dos Correios. Não anda nada. Ninguém tem experiência para fazer o ‘turnaround’ de uma empresa desse tamanho. Vai torrar os R$ 20 bilhões e vão faltar os outros R$ 20 bilhões. Isso terá de ser enfrentado. Não dá para ficar brincando de ideologia. É fundamental que Lula e seu partido percebam que, se não houver um ajuste fiscal sério no primeiro ano, não vai voar. Não há discurso ou improviso que resolva. Junto com isso, é preciso recuperar minimamente a governança pública.
Por que essa seria uma eleição de transição?
Porque, em 2030, não teremos os dois principais candidatos desta eleição, por razões diferentes. O cenário estará aberto para uma nova geração. Mas não dá para esperar até lá. No ano que vem, alguma coisa terá de acontecer. Caso contrário, veremos situações muito mais complicadas. A combinação de deterioração fiscal, piora da governança e falta de crescimento do investimento e da produtividade vai levar a uma piora para todos os lados.
É possível manter o arcabouço fiscal?
Tem de começar a refazer o arcabouço fiscal. A regra terá de ser repensada. Esse arcabouço fez água definitivamente. Mais importante do que saber o que está dentro ou fora da regra é quanto a dívida pública aumenta para financiar o déficit e rolar a própria dívida. O ano que vem será dificílimo: baixo crescimento, pressão inflacionária, juros elevados e deterioração da governança. Um país que não tem produtividade não cresce. Quando não cresce, vira um jogo de rouba-monte, e nós estamos indo cada vez mais para a selvageria.
Como o sr. vê a oposição?
O cenário atual não é necessariamente definitivo. O principal opositor é uma candidatura tão fraca e com tantos problemas que não dá para afirmar qual será o cenário do segundo turno. Pode surgir um terceiro nome e mudar até o cenário da reeleição. Um cenário em que uma oposição fraca vence a eleição me parece pouco provável. Um ‘turnaround’ completo é difícil, porque há pouco tempo, mas não é impossível. Se um nome como Caiado despontar, por exemplo, poderia gerar um otimismo extraordinário.
Se não houver um sinal mínimo de ajuste, qual será a consequência?
Se começar a haver desconfiança, a primeira coisa será uma forte desvalorização do câmbio, com estímulo à saída de capital. Se o câmbio subir, a inflação vai junto. A dívida terá de encurtar seu prazo médio, e o governo só conseguirá vender títulos a juros cada vez mais elevados. Nesse cenário, o ajuste fiscal será praticamente imposto pelas circunstâncias. Nos últimos anos, algumas coisas se consolidaram: a deterioração da governança, o fim da ilusão de que o modelo petista gera crescimento sustentado, o problema fiscal e o fracasso da política de proteção à indústria. A indústria brasileira está fraca e a produtividade não cresce. Esses quatro pilares mostram que chegamos a um limite. Está claro que temos de superar tudo isso para poder avançar.
Qual é o cenário para o fim deste ano e para 2027?
Nós estamos vendo que a economia neste segundo semestre vai desacelerar mais rapidamente do que se projetava. Mantivemos nossa projeção de crescimento entre 1,7% e 1,8%, porque nossa hipótese é de que a dureza da política monetária e suas consequências vão dominar a expansão fiscal e os programas de crédito. Os dados básicos de atividade estão fracos. As vendas do comércio, os serviços e o IBC-Br mostram a mesma coisa. A indústria, em geral, está muito fraca.
Quais são as principais tendências globais?
Uma é o aquecimento global. Outra é uma revolução tecnológica com a inteligência artificial, que aumenta nossa distância em relação à média. A terceira é a nova realidade geopolítica, com uma disputa de liderança entre dois polos globais. Não é pouca coisa que temos pela frente, e tudo isso converge para 2027. O que lamento é que a única coisa que não se discute na campanha eleitoral é o que será feito com o País. Isso significa que as medidas serão tomadas às pressas. É lamentável.
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2026-07-28T07:00:00.0000000Z
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