No sul do Brasil, um híbrido de cão com raposinha
Resgatada de um atropelamento, fêmea passou por testes genéticos e confirmou-se a rara mistura de gêneros
ROBERTA JANSEN
Há dois anos, um animal muito parecido com uma raposa de pequeno porte foi atropelado numa estrada vicinal do município de Vacaria, Rio Grande do Sul. Resgatado por uma patrulha ambiental, o bicho foi levado ao setor de animais silvestres do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Parecia ser o animal conhecido popularmente no Sul do País como raposinha dos pampas, que não é exatamente uma raposa, mas o graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus), um pequeno canídeo carnívoro típico da América do Sul.
Porém, logo que saiu da caixa de transporte, o bicho começou a latir. A pelagem também era estranha. Os graxains-docampo costumam ter coloração bege e cinza. A fêmea tinha pelagem bem mais escura, praticamente preta. “Logo achamos que não era um graxaim, mas, sim, um cachorro. Enviamos ao setor de cães, mas ela voltou para a gente. Era uma crise de identidade”, diz o veterinário Marcelo Alievi, do Hospital Veterinário da UFRGS.
No setor de animais domésticos, a fêmea se recusava a comer ração, mas se mostrou muito disposta a devorar pequenos roedores. Além disso, não era dócil. Voltou à área de espécies silvestres.
‘GRACHORRA’. Entrou em cena, então, o geneticista Thales
Renato Ochotorena de Freitas, do Instituto de Biociências da UFRGS, para esclarecer o mistério: a fêmea era graxaim ou cachorra? Os testes genéticos revelaram que, na verdade, era uma “grachorra”, como foi batizada no laboratório, um animal híbrido. A mãe era graxaim, mas o pai era cachorro de raça não definida.
Os graxains vivem no campo. Mas a grande maioria das fazendas tem cachorros, que costumam viver soltos. Ou seja, o encontro dos dois animais não seria difícil.
Do ponto de vista ecológico, a mistura não é positiva, uma vez que o graxaim é uma espécie silvestre local e o cão, uma espécie invasora. A hibridização é considerada ameaça à vida selvagem, com risco de possível alteração de espécies locais. “É uma contaminação, pode estar acontecendo uma passagem de genes do cachorro doméstico para uma espécie selvagem”, explicou Freitas.
Foi a primeira vez que um híbrido de cão e graxaim foi descrito no mundo. Embora os dois animais pertençam à mesma família, os canídeos não são do mesmo gênero, o que torna o cruzamento ainda mais surpreendente - seria a primeira vez que um cão produz um híbrido com um animal de gênero diferente. O trabalho científico foi publicado no início de agosto na revista Animals.
Recuperada do atropelamento, a “grachorra” foi castrada (não é indicada a reprodução de híbridos) e enviada ao Mantenedouro São Braz, um zoológico em Santa Maria. Ela morreu no início deste ano. As causas da morte não foram divulgadas. •
UMA BOA HISTÓRIA
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2023-10-29T07:00:00.0000000Z
2023-10-29T07:00:00.0000000Z
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O Estado