Praia de SC vai passar pelo 4º alargamento da faixa de areia em 30 anos
Nova obra prevê a engorda de 2 dos 7 km da orla de Balneário Piçarras; especialista vê risco ambiental na nova intervenção
WILLIAN CANAN COLABOROU JOSÉ MARIA TOMAZELA
Balneário Piçarras, no litoral de Santa Catarina, vai ampliar a faixa de areia da Praia Central pela quarta vez em menos de 30 anos. A nova obra prevê a engorda de dois dos sete quilômetros de orla do município, com investimento de R$ 38,289 milhões.
A engorda das praias tem sido uma das estratégias adotadas em Santa Catarina para driblar a erosão costeira, um dos principais efeitos das mudanças climáticas. Além de Piçarras, Balneário Camboriú e Florianópolis são outras cidades catarinenses que também já tem intervenções desse tipo.
A previsão é concluir o trabalho 70 dias após a assinatura do contrato com a empresa vencedora. Não está definida a data de início das obras, mas os interessados têm até o dia 5 de setembro para enviar as propostas.
A primeira intervenção em Piçarras foi feita em 1998, sendo refeita dez anos depois, em 2008 e em 2012. “Temos problemas na nossa orla com ressaca marítima e já sofremos com isso há alguns anos”, afirma o prefeito Tiago Baltt (MDB).
O processo de alargamento da faixa de areia utiliza grandes barcos conhecidos como dragas, que retiram areia do fundo do mar e recolocam em um aterro na orla da praia. “As mudanças climáticas provocam as chamadas ‘praias famintas’, porque o sedimento não chega ao mar e, quando chega, tem um processo erosivo que produz praias com cada vez menos areia”, afirma o professor de Oceanografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Paulo Horta.
TURISMO E EMPREGOS. Além da proteção da orla, a prefeitura espera que o alargamento atraia mais turistas e crie mais empregos durante o verão. A primeira vez que a prefeitura debateu o novo alargamento foi em 2017. De lá para cá, já foram lançados três editais, incluindo o mais recente. Na primeira vez, a concorrência não teve participante.
Na segunda tentativa, o orçamento era de R$ 24 milhões e as duas empresas interessadas deram lances acima dos R$ 32 milhões. Além disso, logo depois da abertura dos lances, o Tribunal de Contas do Estado embargou o processo por suspeitas de sobrepreço.
Para evitar novos problemas, o município refez o edital, com a ajuda do Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH).
“Entendemos que o que estava sendo feito não poderia existir do jeito que estava, então fizemos novos estudos para lançar essa licitação”, afirma o prefeito.
Efeito da crise climática A engorda das praias tem sido uma estratégia para driblar a erosão costeira em Santa Catarina
Para Horta, mesmo com estudos técnicos, a engorda traz riscos ambientais. “Existe toda uma biodiversidade que é prejudicada”, afirma. A tendência, acrescenta ele, é de que obras desse tipo durem menos, por causa do aumento acelerado do nível do mar. “Apesar do alargamento da faixa de areia nos dar mais tempo para evitar tragédias humanas, o processo também libera gases como o metano e o gás carbônico, que aceleram o aquecimento global”, diz Horta.
Uma nota técnica de pesquisadores da UFSC em maio destacou ainda que “em praias alteradas artificialmente tem ocorrido aumento de ferimentos em turistas, como lesões na coluna por ondas quebrando com força em praias mais íngremes e aumento nos afogamentos causados por correntes de retorno”.
Para minimizar problemas, a prefeitura criou um plano de contenção de danos e preservação, que deve ser seguido no processo. Entre as ações previstas estão o uso de dragas com defletores para evitar a captura acidental de tartarugas e de outros animais marinhos. Na área de retirada dos sedimentos, também serão criados pontos de preservação, para permitir a procriação de animais.
ALARGAMENTO EM NATAL. Como o Estadão mostrou em fevereiro, a Praia de Ponta Negra, em Natal, no Rio Grande do Norte, considerada referência para o surfe, deixou de ter as grandes ondas que fazem toda a diferença para os praticantes do esporte. Desde que a orla de 4,6 quilômetros passou por um processo de alargamento, com a colocação de 1,3 milhão de m³ de areia, as ondas minguaram e os surfistas têm de se deslocar para outras praias.
Na ocasião, a prefeitura de Natal informou que a intervenção, concluída em 24 de janeiro, foi necessária para conter a erosão causada pelo avanço do mar contra o calçadão da praia e o Morro do Careca, cartãopostal da cidade. Afirma ainda monitorar a obra e diz ser necessário um tempo para o reequilíbrio ambiental.
Segundo o professor Marcelo Chaves, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que integra o Programa de Monitoramento da Hidrodinâmica Costeira no Estado, o engordamento deixou a dinâmica da praia mais instável. A faixa de areia se aproximou do local onde as ondas se formavam e quebravam, diminuindo a zona de surfe. Toda praia que passa por uma engorda desse porte, diz ele, muda seu perfil até chegar a um equilíbrio, o que pode levar de 2 a 3 anos. •
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2025-08-17T07:00:00.0000000Z
2025-08-17T07:00:00.0000000Z
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O Estado