‘Cenário é de campo minado’, diz CEO de gestora sobre eleição
Gestora adota pragmatismo para proteger patrimônio que tem sob gestão com ações em Bolsa Formado em Engenharia pela PUC-RJ, passou pelo Banco Pactual antes de ser cofundador da Occam Brasil
MARÍLIA ALMEIDA
Duda Rocha, CEO da Occam, com R$ 16 bilhões sob gestão, adota uma postura pragmática diante da disputa presidencial, que considera muito dividida, e espera forte volatilidade após o resultado final. Para atravessar um cenário de “campo minado”, com empresas sufocadas pelos juros altos, o executivo afirma estar 80% protegido em Bolsa. Sua estratégia também inclui investimentos em índices de ações americanas e preferência por empresas brasileiras que considera de maior qualidade.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
O cenário é mais favorável para investir no Brasil ou no exterior?
Acho mais provável termos um ajuste fiscal à frente. Se isso acontecer, a inflação poderá ficar abaixo da meta e os juros poderão cair. Sem o ajuste, pode haver pressão de alta sobre os juros. Por isso, estamos com uma posição menor em juros. Traçando esse panorama, achamos mais simples estar investido lá fora porque existem menos variáveis que não podemos controlar.
As decisões mais recentes sobre juros nos Estados Unidos e no Brasil mudaram a visão da Occam?
As decisões não mudaram tanto a nossa avaliação porque já considerávamos que o banco central americano, o Federal Reserve (Fed), precisava subir os juros e revisar suas projeções. Foi um ponto positivo: o Fed está fazendo a coisa certa.
“Eu não sei exatamente por quanto tempo essa conjuntura desfavorável vai durar. Você pode ter um superEl Niño e o cenário pode continuar desfavorável para a próxima safra” “Acho mais provável termos um ajuste fiscal à frente. Se acontecer, a inflação poderá ficar abaixo da meta”
A resiliência do crescimento global favorece os ativos de risco, principalmente as ações. Os Estados Unidos vêm registrando crescimento forte, assim como a Europa e o Sudeste Asiático. A China também continua resiliente. Há ainda um movimento de forte expansão fiscal em vários países, inclusive no Brasil. Essa “irresponsabilidade fiscal” preocupa o mercado global e tem mantido os juros mais altos. Mas em parte desses países isso também reflete um crescimento econômico maior. As Bolsas europeias subiram muito nos últimos 24 meses porque a inflação está aumentando por um motivo que consideramos positivo: o crescimento mais forte. A inteligência artificial (IA), área em que temos maior exposição, é um fundamento independente da eleição. Esse ciclo forte tem sido confirmado por empresas como a Nvidia, líder em arquitetura de chips. As projeções indicam que a companhia deve crescer 70% no próximo ano, depois de aproximadamente 100% neste ano. Ela tem encomendas para mais de dois anos à frente.
A alta do petróleo pode impactar a inflação no curto prazo?
Sim. Por isso, o petróleo acima de US$ 100 é um incentivo para que as nações que não são adversárias do Irã, e são compradoras do óleo, contenham a guerra, porque a alta da commodity é muito prejudicial. Além de o petróleo estar alto, as margens das refinarias estão altas, o que favorece as empresas de petróleo. O crescimento resiliente das economias mundiais também é favorável para commodities. Portanto, o momento favorece mercados emergentes, principalmente o Brasil, que é fornecedor de commodities. O mais provável é que esse movimento de petróleo e surto inflacionário seja temporário e não estrutural e esteja acontecendo não só pela guerra, mas também por um bom motivo, que é crescimento.
A Occam está tão seletiva com crédito quanto o restante do mercado?
Olhamos muito para empresas que têm uma vantagem competitiva para passar por esse período turbulento. Só que seus retornos não estão altos, porque todo mundo quer ganhar (a taxa do) CDI (Certificado de Depósito Interbancário) mais uma taxa adicional. Então, estruturamos operações com elementos de proteção nas quais ganhamos uma taxa adicional. Felizmente, nós não passamos por nenhum evento de crédito nos últimos cinco anos porque temos um comitê robusto.
Você considera que o problema do agro foi resultado de uma conjunção pontual de fatores?
Eu não sei exatamente por quanto tempo essa conjuntura desfavorável vai durar. Você pode ter um super-El Niño e o cenário pode continuar desfavorável para a próxima safra, seis meses à frente. Vai flutuar, mas não vai ser a mesma coisa. Enfim, o agronegócio é um setor que a gente evita, assim como o varejo, no qual a competição do e-commerce está muito forte.
E-INVESTIDOR
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2026-10-05T07:00:00.0000000Z
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