O Estado de S. Paulo

O que é o ‘sticker shock’ climático

Moisés Naím

Dois trilhões e quatrocentos bilhões. Esse é o astronômico valor em dólares necessário para enfrentar as mudanças climáticas. Não apenas de uma só vez: é o valor que teria que ser gasto ano após ano para evitar os piores efeitos das alterações que provocamos na atmosfera. Ninguém sabe ao certo quem ou como tal valor estará disponível. Mas é melhor encontrarmos a solução.

Na América Latina, por exemplo, os impactos das mudanças climáticas serão sentidos ao mesmo tempo que a precariedade econômica se acentua. Cidades costeiras como Guayaquil, no Equador, são muito vulneráveis à elevação do mar e à proliferação de tempestades cada vez mais intensas. A região andina sofrerá o recuo acelerado das geleiras, o que reduziria a disponibilidade de água. A Bolívia, por exemplo, poderá perder toda a superfície glacial nas próximas décadas. O México enfrenta o impacto duplo de mais secas no norte e maiores inundações no sul.

A América Latina precisa urgentemente de acesso a mais financiamento para proteger seus habitantes, mas as quantias exigidas são assustadoras. Os americanos têm uma expressão para descrever a vertigem causada por tais cifras: choque do preço (“sticker shock”), que capta o impacto que sentimos ao descobrir que não há como pagar um gasto imprescindível.

O dinheiro necessário para mitigar os efeitos do aquecimento global ilustra o terrível problema que resulta da disparidade entre quem terá de pagar e quem gastará. As despesas necessárias para mitigar os choques climáticos devem ser destinadas à proteção dos países do Sul com dinheiro proveniente dos países do Norte que também devem dedicar fundos para se protegerem.

Obviamente, este é um desafio politicamente explosivo. Até agora, os países ricos tiveram sérias dificuldades em angariar US$ 100 bilhões para financiar os investimentos necessários nos países pobres. É evidente que as instituições que temos hoje para amortecer os efeitos das alterações do clima são muito insuficientes, mas as consequências da inação seriam demasiado terríveis para sequer começarmos a contemplá-las.

O número de US$ 2,4 trilhões começa a assumir outro aspecto. É mesmo inatingível? É menos da metade dos US$ 6 trilhões que o mundo gasta anualmente em educação e equivale aos US$ 2,2 bilhões gastos em defesa no ano passado. São números muito grandes, mas são também o tipo de números que a humanidade já demonstrou ser capaz de mobilizar para financiar suas prioridades.

Nos próximos anos, o mundo terá de reagir à nova realidade de que a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas são tão indispensáveis como a defesa e a educação. Assim que compreendermos isso, superaremos o choque do preço e começaremos o trabalho de angariar fundos que a humanidade necessita para se adaptar ao futuro. •

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Mundo terá de reagir à nova realidade de que às mudanças climáticas são prioridade

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT

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2023-11-13T08:00:00.0000000Z

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