O Estado de S. Paulo

Rei do frango fatura R$ 3 bi e exporta para 75 países

Apostando em redes regionais de supermercados, o grupo São Salvador Alimentos fatura R$ 3 bilhões por ano e exporta para 75 países; companhia se prepara para abertura de capital

FERNANDA GUIMARÃES

Longe do eixo Rio-São Paulo, o empresário José Carlos Garrrote de Souza – Zé Garrote ou ZG para os mais íntimos – vem construindo uma gigante regional do frango em Goiás: a São Salvador Alimentos. Com as marcas Super Frango e Boua no portfólio, a empresa fatura cerca de R$ 3 bilhões por ano e quer alçar voos maiores. Mesmo não tendo conseguido fazer sua abertura de capital em 2021, a companhia segue em contato com investidores da Faria Lima, centro do mercado financeiro nacional, e vem chamando atenção com seus números.

Garrote – que, aliás, não é seu sobrenome de batismo, mas tem origem em um apelido de infância – é muito conhecido em Goiás. Uma das histórias por trás da empresa é a de que, em três ocasiões, ele vendeu todo seu patrimônio para expandir o negócio. Foi assim que, na década de 1980, levantou capital para ter seu abatedouro. Uma das propriedades que vendeu foi sua casa, o que o fez ir morar na casa do sogro por um período. Nascia assim, em sociedade com o pai de sua esposa Flavia, que já tinha uma granja, a dona da marca Super Frango.

A jornada de Garrote, hoje com 64 anos, no mundo do frango não foi planejada. Seu caminho estava direcionado a ser dono de uma drogaria, como o pai. Mas, pouco tempo depois de ter se casado, o sogro pediu sua ajuda para cuidar do negócio, após um problema de saúde do filho que o tirou do dia a dia da granja. Foi aí que, com a esposa, decidiu vender pela primeira vez todo seu patrimônio, incluindo casa e carro, para investir no negócio. “Eu queria desenvolver o negócio de farmácia, nunca tinha pensando em trabalhar com frango.”

Diferentemente de grandes produtores, a São Salvador Alimentos decidiu fornecer aos pequenos supermercadistas. Para isso, desenvolveu uma logística para fazer entregas em prazos mais curtos, e em menores quantidades, em lugares longe das capitais. Esse atendimento no “pinga-pinga” evita que esses varejistas, com menos fôlego de caixa, sejam obrigados a fazer pedidos grandes demais.

Com esse olhar para as redes regionais, os preços dos produtos vendidos acabam sendo maiores e, com isso, as margens de lucro cresceram – justamente o ponto que tem chamado a atenção do mercado financeiro. A margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da empresa tem se mantido consistentemente acima de 25%, ao passo que o índice da empresa mais conhecida do setor, a BRF (dona das marcas Sadia e Perdigão), tem ficado em torno de 10%.

CRESCIMENTO.

No início dos anos 1990, a companhia abatia 2,5 mil aves por dia. Foi nessa época que os planos de crescer se aceleraram. “E decidi fazer um abatedouro para 8 mil e uma infraestrutura para 20 mil aves por dia. Ninguém na Faria Lima daria conta de entender essa conta”, brinca. Hoje, anos depois, o abate diário é de cerca de 430 mil aves – e, recentemente, foi inaugurado um complexo de produção para chegar a 730 mil aves por dia. A empresa está presente em 14 Estados, no Distrito Federal e exporta para 75 países.

Em 2021, acelerando seu crescimento, inaugurou uma nova fábrica de rações. Para a frente, o empresário garante que há muito espaço para crescer. Mas diz não ter pressa. “Muita gente que caminhou rápido caiu.”

Garrote lembra que, antes de ser reconhecido pelo império que construiu em Goiás, se desfez por três vezes de todo seu patrimônio. Primeiro, no início dos anos 1980, vendeu carro, casa e drogarias; anos mais tarde, um apartamento comprado na planta também foi investido na granja; e, por fim, a casa do sogro teve o mesmo destino. “Tudo isso compensou”, afirma.

DE OLHO NO MERCADO.

Com os dados de crescimento e de lucratividade debaixo do braço, a companhia fez na última semana um non deal roadshow – no jargão do mercado, reuniões de empresas com investidores sem uma operação de mercado específica. A demanda foi tão grande que um segundo dia de encontros teve de ser marcado.

Apesar de seguir como o nome forte dentro da companhia, Garrote está hoje no conselho de administração. Na pandemia, seu filho, Hugo Perillo Vieira e Souza, de 37 anos, assumiu o comando da companhia – além de Hugo, as duas filhas de Garrote, Ana Cláudia e Ana Flávia, também trabalham no negócio da família. Ele tem quatro netos, que carregam na certidão o sobrenome adotado pelo avô: Garrote. “Eu também já mudei todos os meus documentos. Se perguntar quem é José Carlos de Souza, ninguém sabe.”

É de olho na perenidade da São Salvador que Garrote quer fazer a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da empresa. Ele garante que o IPO ainda virá, na hora certa. É por isso que tem mantido há anos uma estrutura de governança. Colocando a chegada à B3 como meta, ele contratou uma das principais auditorias com atuação no Brasil, o escritório de advocacia Pinheiro Neto e a consultoria Falconi para colocar a casa em ordem. Do lado do banco de investimento, recrutou a XP.

Agora, ao voltar a mostrar seu negócio para investidores, Garrote diz que vai entregar aquilo que tinha sido prometido em termos de lucratividade. “Entregamos o resultado de 2021 à risca”, diz. Com a casa arrumada, ele afirma que, quando voltar ao mercado, “não haverá nenhum sobressalto”.

Consultor especializado em agronegócio, Carlos Cogo diz que o setor granjeiro vive um momento de “mercado interno aquecido e bom ritmo de exportações, que deverão crescer entre 6% e 8% em 2022”. “A maior demanda interna dá sustentação aos preços do frango vivo neste mês de agosto, enquanto os insumos usados na avicultura recuam, aliviando o custo de produção”, afirma.

Recentemente, após deixar o cargo executivo de sua empresa, Garrote assumiu a presidência da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial). Em ano de eleições, ele diz que confia no País. “O Brasil tem grandes oportunidades à frente. Acredito na democracia e instituições do Brasil. Precisamos de uma gestão mais alinhada às tendências mundiais. Isso nos ajudará a crescer mais e mais”, diz.

Produção

A São Salvador abate cerca de 430 mil aves por dia e inaugurou um complexo para chegar a 730 mil

PRIMEIRA PÁGINA

pt-br

2022-09-04T07:00:00.0000000Z

2022-09-04T07:00:00.0000000Z

https://digital.estadao.com.br/article/281569474553763

O Estado