Walter Mancini reina na Avanhandava há quase 50 anos
Prestes a abrir nova casa, Walter Mancini explica o que faz a Avanhandava ser um sucesso paulistano há quase 50 anos
GIULIA HOWARD
As 600 lâmpadas envoltas em bolas coloridas iluminam menos de 200 metros da Rua Avanhadava, mas são lembradas nacionalmente como os ornamentos de uma das ruas mais icônicas da capital paulista. Da Rua Martins Fontes à Martinho Prado, essa parcela do Centro de São Paulo transporta os passantes a uma realidade paralela, que respira comida saborosa, boas conversas, teatro e arte – e convida a sonhar acordado.
Tudo isso, porque, sim, a Avanhandava é fruto do sonho de um homem chamado Walter Mancini, o próprio “dono da rua”. “Quando você caminha nesta rua, você caminha sobre a minha alma. Você entra nesse grande labirinto cheio de sonhos, ideais e fantasias. É como aquela frase que eu escrevi: ‘A vida vale o quanto você sonha’. E eu vivo sonhando, pego uma parte dos meus sonhos e vou traduzindo em restaurante”, conta ele.
Nascido em 1942, cresceu na cozinha de sua mãe, sempre influenciado pela cultura italiana herdada de seus avós e em contato com a dinâmica do Mercadão Municipal – do qual era vizinho. “Eu vivi dentro do Mercado, venho desse mundo”, diz. Tanto é verdade que a farta mesa de antepastos clássica dos estabelecimentos Mancini é inspirada por esse espaço. “Você vê o antepasto ali exposto, azeitona, o queijo, aquela coisa de pegar um pedaço, então eu trouxe isso para que o cliente se servisse. E isso não é nenhuma genialidade, é a reprodução de um grande mercado, onde eu trabalhei quando menino.”
Aos 17 anos, começou a trabalhar como DJ em discotecas. E a sua paixão pelo agito das noites e do Centro tornou a decisão de fincar acampamento na Avanhandava quase óbvia. E, claro, quando o antigo Zi Tereza saiu da rua e o imóvel número 81 vagou, não havia dúvida: a razão por trás do novo agito da rua nascia ali. “Eu procuro sempre fazer uma casa que encante, envolva e proporcione momentos de felicidade. Tem de envolver: vestir o prato e o instante”, declara.
MÚSICA. Coloquemos os pingos nos is. A história de Walter restaurateur começa em 10 de maio de 1980, quando inaugurou a Famiglia Mancini Trattoria. Em 2001, abriu o Walter Mancini, sendo a sua primeira casa a ter música ao vivo. “Tinha um piano e eu trouxe músicos que conhecia da época em que eu trabalhava na noite.”
Depois, chegou à rua a pizzaria, em seguida, o Madre Pérola (especializado em frutos do mar), daí o Migalhas (de sanduíches), teve também o Sweet Mama (forno e fogão). Agora, o espaço em que esses três já operaram volta à ativa em nome de Marianina e Marietta, sua mãe e sua tia, que lhe ajudaram muito no início da carreira na gastronomia e batizam o novo empreendimento.
Na recém-reformada pizzaria, a materialização dos sonhos se faz ainda mais presente. Em frases escritas pelo próprio Walter espalhadas em estantes na entrada, nas escadas, no elevador panorâmico com vista para toda a rua, ele coloca sua alma. Na pizzaria, juntou seu maravilhamento de viver e a vontade de voltar à infância. “Eu fiz este restaurante para crianças, para trazer à tona a criança interior dos adultos que vêm comer aqui.”
“Eu devo muito ao teatro”, comenta. As artes cênicas estão sempre inseridas no imaginário de suas casas. Seja o Pierrot recepcionando os clientes à porta, as bailarinas circenses penduradas no teto, as luzinhas de Natal, as flores de vidro e o carrossel de unicórnios. No Walter Mancini, a casa com inspiração em ristorantes italianos, embalados por música ao vivo, tem na lateral uma réplica da porta do Cinema Paradiso. Ao entrar, a trilha do filme nos recepciona.
Literalmente no meio disso tudo, no número 81, está a Famiglia Mancini, “a mãe”, como o seu criador a considera. “É onde tudo começou, uma casa emblemática.” Segundo Walter, mais de 15 milhões de pessoas passaram pela porta da cantina. E ele faz questão de dar todo o mérito não a si próprio, mas a ela, à casa, com suas paredes, o teto, o chão, tudo muito impregnado de magia.
“Se você disser para mim que todo o sucesso dessa casa é por eu ser um homem hábil, experiente, eu diria: não é bem assim. Essa casa não se explica. Ela é como um milagre para mim. Ela tem a digital, a identidade de Deus, o dedo dele. Então, alguma coisa acontece aqui que não se explica. Como um milagre, está além da compreensão humana. É uma casa que há 46 anos tem fila de espera na porta todos os dias, é querida, amada, respeitada pelo seu trabalho, pelo que ela é.”
LADRILHOS COLORIDOS. São cerca de 800 metros de rua, dos quais um quarto tem a cara, o cheiro e o movimento das três – em breve quatro – casas de Mancini, além de sua loja de arte. Em 2007, Mancini, com apoio de órgãos públicos, revitalizou a rua. Reinaugurada em 20 de janeiro daquele ano, o piso da calçada e da rua foi trocado por ladrilho intertravado de várias cores, teve um projeto de paisagismo, reformas estruturais e, claro, a instalação da tão sonhada fonte.
“Eu posso simplificar a Rua Avanhandava aos seguin
tes termos: ela deu um exemplo de que é possível fazer bem feito, é possível cuidar da rua, olhar para fora, de dentro do seu restaurante, para o tapete que recebe o seu cliente, é possível fazer isso.”
“Eu sempre acreditei no Centro e o fato de eu ter revitalizado a Avanhandava serviu de gancho para muita gente. Inauguraram muitos prédios, donos de restaurantes vieram para o Centro, como a Janaína Torres, com O Bar da Dona Onça, o Jefferson Rueda, com A Casa do Porco, o Olivier Anquier, um homem brilhante profissionalmente, e acredito que a Avanhandava deu o pontapé inicial.”
GRATIDÃO.
“Não é você que escolhe a casa, é a casa que o escolhe, eu fui escolhido e aqui fiquei. Em 1980, o imóvel ficou disponível, então eu peguei”, relembra. Walter morou na Avanhandava em 1968. “Nenhum outro homem poderia fazer essa rua ficar assim a não ser eu, como gratidão, porque ela já me abraçou em um instante muito difícil da vida. Morei de favor aqui e sou muito grato a essa rua e a quem me estendeu a mão.”
Mancini diz que, para criar algo como isso tudo, não se pode ter apego simplesmente ao dinheiro. “O sucesso desta rua é fruto de despojamento, é dádiva. Fazer uma rua é fácil, como é fácil fazer um filho, difícil é cuidar da rua e do filho, a encrenca está aí”, brinca. “Quando a gente trabalha para que o outro fique feliz, esse é o mágico da vida, é a maravilha da existência. A vida só vale em função de outras vidas, senão não vale nada.”
PANDEMIA.
Quando um dos maiores desafios da história atual se colocou diante de Walter Mancini, ele soube encarar. “Não mandei ninguém embora, segurei todo mundo”, diz. Ele conta que a pandemia o levou a contrair dívidas e a acumular empréstimos.
Ele faz questão de deixar bem claro que, se “morre a Famiglia Mancini, meu enterro sai junto”. Para ele, “a casa tem a digital de Deus, eu sou o caseiro dele, então como eu peço a chave a Ele para encerrar as atividades? Eu já vim desde criança atravessando situações de tormenta e não seria a pandemia que iria me parar”.
Walter acredita que a resiliência de trabalhar desde cedo foi crucial para ter força para sempre se reinventar. “Eu trabalho desde os 8 anos de idade. Eu embrulhava peixe lá no mercado. Eu não tenho fim, eu vou me reciclando no universo”, sentencia. “Se você perder a fé, a esperança e a coragem, você não tem mais nada para perder, já perdeu tudo. Eu tenho os três.”
PARCELAR NO CARTÃO.
“Quando eu procurei as empresas de cartão para começar a parcelar as contas dos meus clientes, achavam que eu estava doido, mas eles acabaram se convencendo de que eu estava certo.” No dia em que começou a aceitar esse novo método de pagamento, já viu o efeito: uma senhora que havia pedido o vinho da casa, leu na plaquinha da mesa que era possível parcelar e pediu para devolver, optando por um vinho italiano de garrafa, já que podia parcelar. “O cliente está na minha casa e não no concorrente. Então, eu ganhei. Tudo que você der para o cliente, você só ganha, mesmo que não tenha o lucro no papel. O cliente vem e sai feliz, querendo voltar – esse é o grande lucro.”
MOLHO DE MÃE.
Meia tonelada de molho de tomate. É isso que é feito nas cozinhas de Mancini diariamente. A receita segue sendo a mesma da sua mãe há 46 anos. Quando perguntado sobre os carros-chefes, alguns pratos estão na ponta da língua. Afinal, com quase 50 anos de história, são muitos os clássicos atemporais.
“Na Trattoria, os hits são parmegiana, lasanha e nhoque. Mas também os escalopes com massa ao molho, além de perna de cabrito, ossobuco, ragu, tudo isso vende muito. É uma culinária caseira, nós não temos uma cozinha autoral. Não tem criatividade, tem sabor, excelência na qualidade do produto, afeto e tudo vai se somando.”
No Walter Mancini, o sucesso é o bacalhau à Portugal – posta grelhada ao azeite de oliva com brócolis, azeitonas pretas, batata sauté, tomate e ovos cozidos. “Já na Famiglia, é o que você quiser”, brinca, com destaque ao parmegiana. Em comum entre as casas, a excelência da mesa de antepastos. “Às vezes, as pessoas vêm só por essa mesa”, diz, explicando que na casa nova, haverá uma pizza rústica e um prato que ele sempre comia: o fusilli com braciola.
O NOVO CAPÍTULO.
A ideia é abrir o Marianina e Marietta no segundo semestre de 2026, entre agosto e outubro. “Será de culinária italiana, com pequenas pizzas, algumas coisas do mar que tinham no Madre Pérola, como espaguete com frutos do mar, casquinha de siri, de camarão”, conta Walter.
O interior da nova casa tem como inspiração as casas de farinha do Brás, para dar um aspecto histórico e bem claro à ambiência. “Eu sou do Brás e lembro das fábricas com esses tijolos em escamas das indústrias. Busquei trazer isso para cá, com aspecto de casas de farinha branca. Vai ser um astral para cima, uma casa bem iluminada.” A decoração mostra detalhes da vida de Walter, desde quadros nas paredes que expõem desenhos feitos por ele mesmo até fotografias que contam a sua história.
O legado de Mancini já está vivo em cada ladrilho e madeira, nos copos, nas louças, nas máscaras de carnaval venezianas que apontam o número de cada mesa na trattoria. Na pizzaria, a memória mais uma vez se materializa. Estão gravados em placas douradas os nomes daqueles que são a Famiglia: Walter, Jussara, Thiago, Rachel, Selena, Alyssa, Rebeca e, agora, a nova integrante, de apenas quatro meses, Agatha. Sim, a alma de Walter Mancini realmente está em tudo.
“Nenhum outro homem poderia fazer essa rua ficar assim a não ser eu, como gratidão, porque ela já me abraçou em um instante muito difícil da vida”
Walter Mancini
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