O Estado de S. Paulo

Anvisa aprova Mounjaro para crianças e adolescentes

ISABELA MOYA

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso de Mounjaro (tirzepatida) para o tratamento do diabete tipo 2 em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. Historicamente associada à vida adulta, a doença tem aumentado entre crianças e adolescentes. O Brasil figura entre os dez países com mais casos da doença na faixa etária pediátrica no mundo, com cerca de 213 mil adolescentes vivendo com a condição e 1,46 milhão em situação de pré-diabete, segundo a Sociedade Brasileira de Diabete.

O aumento da prevalência de diabete tipo 2 é consequência de maiores índices de obesidade infantil: um em cada três adolescentes (10 a 18 anos) tinha excesso de peso em 2022, segundo o Observatório de Saúde na Infância da Fiocruz. O cenário global não é muito diferente: pela primeira vez, a obesidade infantil superou a má nutrição nessa faixa etária em praticamente todas as regiões do mundo, segundo relatório do Unicef de 2025.

A aprovação do Mounjaro para o tratamento nesse público é baseada nos resultados do estudo clínico de fase 3 SURPASS-PEDS da Eli Lilly, farmacêutica que desenvolveu e produz o medicamento. O resultado mostrou que o medicamento reduziu a hemoglobina glicada em uma média de 2,2% em um período de 30 semanas, em comparação ao placebo. Em um desfecho secundário, 86% dos participantes usando a dose de 10 mg de Mounjaro atingiram a hemoglobina glicada alvo (menor ou igual a 6,5%).

A tirzepatida também demonstrou melhorias clínicas no índice de massa corporal (IMC) das crianças e adolescentes. A maior dose avaliada, de 10 mg, reduziu o IMC em 11,2% em 30 semanas. As melhorias na hemoglobina glicada e as reduções no IMC continuaram por 52 semanas na extensão do estudo.

“Crianças e adolescentes com essa condição enfrentam uma doença de progressão mais veloz do que em adultos, e as opções disponíveis até hoje frequentemente apresentavam limitações”, afirma Luiz André Magno, diretor médico sênior da Lilly, em nota. “Cada ponto porcentual de hemoglobina glicada, ou açúcar no sangue, reduzido em uma criança de 12 anos é potencialmente uma complicação a menos em um adulto de 40 anos.”

A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores GLP-1 e GIP, ou seja, atua ativando os receptores desses dois hormônios intestinais importantes para a regulação do apetite e do metabolismo da glicose.

CANETAS SÃO SEGURAS?

Segundo a Lilly, as taxas de descontinuação do tratamento com a tirzepatida por eventos adversos no SURPASS-PEDS foram baixas e não foi registrado nenhum caso de hipoglicemia grave. Os eventos adversos mais comuns entre os participantes foram diarreia, náusea, vômito e dor abdominal. A farmacêutica afirma que todos foram de intensidade leve a moderada e ocorreram no escalonamento da dose.

As canetas poderiam ser uma boa alternativa terapêutica, segundo a endocrinologista Flávia Coimbra, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). Ao Estadão, ela comentou que os estudos comprovam o perfil de segurança relativo a efeitos colaterais transitórios em adolescentes. Mas ainda não se sabe quais os efeitos no longo prazo – como se os medicamentos podem afetar o crescimento, por exemplo. O ideal, segundo Flávia, é que as crianças continuassem usando o remédio. Apesar disso, a médica pondera que é preciso colocar na conta as possíveis consequências de diabete na vida do paciente, como colesterol alto e doença cardiovascular precoce. “Sempre é um risco versus benefício que tem de ser avaliado individualmente”, disse. •

O que diz a especialista

Canetas podem ser boa alternativa terapêutica, mas continuidade de remédio seria o ideal

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2026-04-23T07:00:00.0000000Z

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