O Estado de S. Paulo

Amazônia perde em 40 anos área equivalente a dois Estados de SP

Perda corresponde a 13% da vegetação nativa; áreas de pastagem foram principal vetor do desmate, diz estudo

ROBERTA JANSEN

Segundo levantamento, 52 milhões de hectares de floresta foram derrubados entre 1985 e 2024, 13% da vegetação nativa do bioma.

A Amazônia perdeu 52 milhões de hectares de floresta nos últimos 40 anos, que representam 13% de destruição da vegetação nativa entre 1985 e 2024, segundo o MapBiomas, rede formada por ONGs, universidades e startups. A área destruída equivale a duas vezes o Estado de São Paulo. O estudo, divulgado ontem, foi feito com base em imagens de satélite e revela que a soja não é mais o principal vetor do desmatamento, e sim a abertura de novas áreas de pastagem.

O mapeamento vem à tona menos de dois meses antes da Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30) em Belém – e pela primeira vez o evento será realizado no Brasil. Sendo a Amazônia o maior bioma do País, a perda é significativa, dizem especialistas. Com 421 milhões de hectares, a floresta ocupa praticamente a metade (49,5%) do Brasil e tem papel importante na regulação do clima do planeta, especialmente na América do Sul. Segundo o MapBiomas, no ano passado a vegetação nativa cobria 81,3% do bioma, e em 15,3% havia atividade humana.

“A Amazônia brasileira está se aproximando da faixa de 20% a 25% prevista pela ciência como o possível ponto de não retorno, a partir do qual a floresta não consegue mais se sustentar”, diz Bruno Ferreira, do MapBiomas. “Já podemos perceber alguns dos impactos dessa perda de cobertura florestal, como nas áreas úmidas do bioma. Os mapas de cobertura e uso da terra na Amazônia mostram que ela está mais seca”, acrescenta.

Conforme o estudo, 2003 foi o ano com mais desmatamento no bioma (3,2 Mha) e 2010, o com menor (0,9 Mha). A partir daí, houve mais altos que baixos. Desde 2023, a tendência é de queda.

Somando a superfície coberta com água – floresta alagável e mangue, por exemplo –, houve retração de 2,6 milhões de hectares entre 1985 e 2024, e 8 dos 10 anos mais secos foram na última década.

ATIVIDADE HUMANA. O estudo mostra ainda como a antropização da Amazônia é recente: 83% dessa ocupação por atividade humana ocorreu entre

1985 e 2024. Somando-se todos os usos antrópicos da terra, eles cresceram 471% (57 milhões de hectares) nos últimos 40 anos. Nesse período, houve avanço de 43,8 milhões de hectares de pastagem – uso antrópico que mais cresceu. Os pastos foram de 12,3 milhões de hectares em 1985 para 56,1 milhões em 2024 – alta de 355%. Em porcentagem, porém, a expansão mais expressiva foi da silvicultura, de 3,2 mil hectares em 1985 para 352 mil hectares em 2024 – mais de 110 vezes. Já a área de agricultura, cresceu 44 vezes (4.321%), de 180 mil hectares (1985) para 7,9 milhões (2024).

A mineração tem ganhado relevância: eram 26 mil hectares em 1985 e, no ano passado, 444 mil. Parte disso ocorre por meio do avanço do garimpo ilegal em áreas protegidas, como reservas indígenas.

SOJA. Segundo os novos dados, 3 em cada 4 hectares convertidos para agricultura (74,4%) são ocupados por lavouras de soja, que ocupavam 5,9 milhões de hectares em 2024. De 2008 para cá, o desmate para o plantio de soja caiu 68% (769 mil hectares). Nesse período, a soja cresceu principalmente em áreas já abertas de pastagem (2,8 milhões de hectares) e de agricultura (1 milhão de hectares).

O ano de 2008 foi o marco estabelecido pela moratória da soja, acordo que busca preservar a floresta, impedindo a compra de soja de produtores que tenham desmatado áreas da região após aquela data. Como os números do MapBiomas mostram, a moratória foi eficaz. Em meados de agosto, porém, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) ordenou o fim do acordo. A decisão foi suspensa pela Justiça Federal, por meio de liminar, em 25 de agosto.

POR ESTADOS. Rondônia destaca-se como o Estado de maior conversão de vegetação nativa em pastagens, que passaram de 7% de seu território, em 1985, para 37% em 2024. É também o Estado com menor proporção de vegetação nativa na Amazônia (60%), atrás de Mato Grosso (62%), Tocantins (65%) e Maranhão (67%).

Em 2024, 2% da vegetação nativa da Amazônia era secundária, ou seja, formada por áreas que foram desmatadas anteriormente e estão em processo de regeneração da vegetação nativa. No ano passado, elas totalizaram 6,9 milhões de hectares no bioma. Essa vegetação não é a mais desmatada: em 2024, 88% do desmatamento na Amazônia aconteceu em áreas de vegetação primária; apenas 12% foram em vegetação secundária. •

Alta de 355% Os pastos aumentaram de 12,3 milhões de hectares em 1985 para 56,1 milhões de hectares em 2024

PRIMEIRA PÁGINA

pt-br

2025-09-16T07:00:00.0000000Z

2025-09-16T07:00:00.0000000Z

https://digital.estadao.com.br/article/281522232239170

O Estado