O Estado de S. Paulo

Pintura em que escravizado ‘reaparece’ será exposta no Met

O colecionador Jeremy Simien revelou o mistério sobre o quadro pintado por volta de 1900 e atribuído a Jacques Amans

ALEXANDRA EATON TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Mercadoria A viúva de Frey vendeu Bélizaire a uma fazenda. Era a única pessoa escravizada da qual havia uma imagem

Por muitos anos, uma pintura do século 19 de três crianças brancas em uma paisagem da Louisiana manteve um segredo. Por baixo de uma camada de tinta que pretendia parecer o céu havia a figura de um jovem escravizado.

Encoberta por motivos ainda não especificados, a imagem do jovem afrodescendente foi apagada da obra por volta da virada do século passado e definhou por décadas em sótãos e no porão de um museu. Mas uma restauração em 2005 a revelou, e agora a pintura tem um novo lugar muito proeminente no Met, o Metropolitan Museum of Art.

“Há dez anos venho querendo adicionar uma obra dessas à coleção do Met”, disse Betsy Kornhauser, curadora de pinturas e esculturas americanas que cuidou da aquisição, “e esta é a obra extraordinária que apareceu”.

Kornhauser contou que o museu adquiriu o quadro, conhecido como Bélizaire and the

Frey Children, este ano, como parte de seu esforço maior para reformular o modo como a história da arte americana é contada. Atribuída a Jacques Amans, um retratista francês da elite da Louisiana, a obra ficará exposta na ala americana neste outono (do Hemisfério Norte) e novamente no ano que vem, durante a celebração do centenário da ala.

POSTURA MARCANTE. Uma das razões pelas quais Bélizaire and

the Frey Children chamou a atenção foi a representação naturalista de Bélizaire, o jovem afrodescendente na posição mais alta na pintura, encostado em uma árvore logo atrás das crianças Frey. Embora permaneça separado das crianças brancas, Amans o pintou em uma postura marcante, com bochechas coradas e uma interioridade incomum para a época.

Jeremy Simien, um colecionador de arte de Baton Rouge, Louisiana, passou anos tentando encontrar Bélizaire depois de ver uma imagem da pintura online em 2013, após sua restauração, que apresentava as quatro figuras. Intrigado, ele continuou procurando, até encontrar uma imagem anterior, de 2005, depois que a pintura havia sido removida do Museu de Arte de New Orleans e colocada para leilão na Christie’s. Era a mesma pintura, mas faltava o jovem negro. Ele havia sido escondido.

“O fato de ele estar encoberto me assombrou”, observou o colecionador Simien em uma entrevista. Durante anos, ele procurou a pintura em antigos registros de leilão, catálogos e arquivos de fotos. Perguntou a amigos se alguém a tinha visto – e alguém tinha, numa loja de antiguidades na Virgínia. De lá, Simien rastreou a pintura até uma coleção particular em Washington e acabou comprando-a por um valor não revelado.

Na época, ele não sabia quem eram as pessoas no retrato. Mas foi atraído pela história do jovem negro e pela tentativa de apagá-lo.

“Sabíamos que precisávamos descobrir quem ele era, como um filho da Louisiana, e como alguém digno de ser lembrado ou conhecido”, explicou Simien, que contratou Katy Morlas Shannon, historiadora da Louisiana que pesquisa a vida de pessoas escravizadas. Ela descobriu a identidade de todos no retrato e usou registros de propriedade e censo para chegar ao nome do jovem que havia sido encoberto: Bélizaire.

A partir daí, Shannon juntou os detalhes da vida de Bélizaire. Ele nasceu em 1822 no French Quarter. Sua mãe se chamava Sallie. Seu pai é desconhecido. Bélizaire tinha outros irmãos e irmãs – todos, exceto um, foram vendidos.

Quando ele tinha 6 anos, Bélizaire e sua mãe foram vendidos para Frederick Frey, um banqueiro e comerciante que, com sua mulher, Coralie, e sua família, morava em uma grande casa no French Quarter na Royal Street e possuía vários escravos.

Bélizaire está listado como doméstico e sua mãe como cozinheira, funções que os manteriam próximos da família.

Os registros sugerem que o retrato foi pintado por volta de 1837, quando Bélizaire tinha 15 anos. Ele foi a única pessoa na pintura a sobreviver até a idade adulta. Duas irmãs Frey, Elizabeth e Léontine, morreram no mesmo ano, provavel

Caso raro A pintura é o primeiro retrato naturalista, na ala americana, de um negro identificado em uma paisagem do sul

mente de febre amarela. Seu irmão Frederick morreu alguns anos depois.

Quase 20 anos mais tarde, depois que os negócios do velho Frederick Frey fracassaram e ele morreu, sua viúva vendeu Bélizaire para a Evergreen Plantation. Shannon, que trabalhava na plantação na época de sua pesquisa, disse que ele é a única pessoa escravizada na plantação da qual existia uma imagem.

LIBERDADE? Bélizaire foi listado em inventários até 1861, quando a Guerra Civil começou. Logo depois, New Orleans caiu nas mãos do Exército da União. “Ele sobreviveu à Guerra Civil e viveu o suficiente para experimentar a liberdade?”, indagou Shannon. “Não sabemos porque a trilha para por aí.”

O retrato permaneceu na família Frey por mais de um século. Não está claro quando Bélizaire foi retirado da pintura, mas Craig Crawford, que fez trabalhos de restauração adicionais no ano passado, estima que, com base no padrão das fissuras, o encobrimento aconteceu por volta de 1900. Quem fez isso, e o porquê, é desconhecido, mas sabe-se que a segregação se aprofundou na virada do século em New Orleans. Shannon comentou sobre então: “Nenhuma pessoa branca de qualquer posição social em New Orleans naquela época permitiria em sua parede um quadro que retratasse sua família junto com uma pessoa negra”.

Nos anos 1950, Eugene Grasser, tataraneto de Coralie Frey, lembrou-se de pegar a pintura no sótão de uma tia idosa e de prendê-la no teto do carro (com outro retrato de família mais tarde identificado como obra de Jacques Amans). Ele a guardou em uma garagem atrás da casa de seus pais.

Em 1971, a mãe de Grasser ofereceu-lhe a obra, mas ela não combinava com sua decoração modernista – e foi doada ao Museu de Arte de New Orleans. As fotografias da pintura, então chamada de Três Crianças em uma Paisagem,

mostram uma quarta figura aparecendo como um fantasma. Segundo o museu, o retrato continha “o escravo que cuidava das crianças”. O museu de New Orleans não limpou nem restaurou a pintura; guardou-a por 32 anos, até que o museu removesse a obra.

Em leilão, a pintura foi vendida por US$ 6 mil a um negociante de antiguidades da Virgínia interessado no que poderia estar sob a pintura.

Ele pediu a uma conservadora, Katja Grauman, para fazer um teste de limpeza. E ela tratou pequenas áreas em que a figura parecia estar e primeiramente revelou um casaco e depois um rosto. “Restauramos muitos retratos americanos de crianças e muito raramente você vê um negro neles”, lembrou ela. O negociante posteriormente vendeu a pintura para um colecionador particular em Washington, onde Simien a encontrou em 2021.

VALORIZADOS. Nem o Met nem Simien divulgaram quanto o museu pagou pelo quadro da família Frey. Mas os retratos do século 19 de pessoas de ascendência africana, mesmo com pessoas não identificadas, atraíram preços altos. Em janeiro de 2023, um retrato de duas meninas, uma branca e uma afro-americana, foi vendido na Christie’s por pouco menos de US$ 1 milhão. Em maio de 2022, em um leilão na Carolina do Norte, um retrato de uma mulher não branca livre foi vendido por US$ 984 mil para o Museu de Belas Artes da Virgínia em Richmond.

O Met planeja investigar a pintura da família Frey para saber mais sobre a vida de Bélizaire. O que levou à sua inclusão em um retrato de família tão íntimo? Ele sobreviveu à Guerra Civil? Há descendentes? Mas a identificação de Bélizaire, propositalmente apagada, já é uma descoberta surpreendente.

Funcionários do Met disseram que a pintura é, na verdade, o primeiro retrato naturalista, na ala americana, de um sujeito negro identificado em uma paisagem do sul. “Ter todas as informações documentadas sobre esse jovem que aparece no retrato é realmente extraordinário”, ressaltou Kornhauser.

Isso foi crucial para que o Met decidisse adquirir a obra. Sem os esforços de Simien e Shannon para descobrir sua identidade, a pintura provavelmente ainda estaria em uma coleção particular, fora de vista, esperando para ser conhecida. •

NEWS

pt-br

2023-08-25T07:00:00.0000000Z

2023-08-25T07:00:00.0000000Z

https://digital.estadao.com.br/article/281522230644102

O Estado