O Estado de S. Paulo

Dívida externa sobe e Brasil deixa de ser credor; maior fatia é do setor privado

Reservas já não cobrem débito de US$ 407,1 bi; analistas veem risco limitado no curto prazo e apontam desequilíbrio fiscal como a principal preocupação

EDUARDO LAGUNA AGÊNCIAS VEEM CENÁRIO CONFORTÁVEL, MAS ALERTAM PARA QUESTÃO FISCAL. PÁG. B2

Reservas já não cobrem débito de US$ 407,1 bilhões. Analistas veem risco limitado no curto prazo. Desequilíbrio fiscal é principal preocupação.

Com o crescimento da dívida externa em ritmo superior ao das reservas internacionais, o Brasil perdeu a posição mantida por 19 anos de credor internacional. Dados do Banco Central (BC) indicam que as reservas, de US$ 402 bilhões (incluindo créditos brasileiros no exterior), já não cobrem todo o endividamento do País com o resto do mundo. Somando setor público, bancos e empresas, a dívida externa alcançou US$ 407,1 bilhões, maior nível em 40 anos de estatísticas.

Do total, 73% está no setor privado – bancos e empresas –, o que reduz o risco soberano direto do País. Em geral, essas companhias têm hedge natural, forma de proteção contra flutuações de preços ou de câmbio, seja via exportações, seja por outras receitas em moeda estrangeira.

A fatia do setor público, próxima de um quarto do total, é formada majoritariamente por títulos emitidos em reais e negociados no mercado doméstico. Quando esses papéis estão nas mãos de não residentes, entram nas estatísticas do BC como dívida externa. Já a dívida pública emitida em moeda estrangeira – que implica exposição cambial – soma

Divisão

Brasil perde posição que manteve por 19 anos; maior parte da dívida é de bancos e empresas

R$ 348 bilhões e representa hoje menos de 4% do estoque da dívida pública federal.

Segundo dados do BC, a dívida externa líquida, negativa de 2007 a 2025 – ou seja, deixando o Brasil em posição de credor –, voltou ao terreno positivo: US$ 5,1 bilhões, segundo o balanço mais recente, de junho. Por ora, o quadro não preocupa economistas e agências de classificação de risco, mas é acompanhado com atenção pelo potencial de virar vulnerabilidade caso o déficit em transações correntes siga elevado e haja saídas relevantes de dólares do País.

Um episódio desse tipo ocorreu no fim de 2024, quando o estresse do mercado com a política fiscal obrigou o BC a fazer a maior intervenção da história do regime de câmbio flutuante.

Analistas consultados pelo Estadão/Broadcast consideram improvável a dívida externa líquida voltar a ultrapassar a marca de US$ 70 bilhões, como acontecia duas décadas atrás, mas veem como plausível uma aproximação da marca de US$ 30 bilhões nos próximos dois anos.

Agências de classificação de risco seguem vendo as contas externas como um ponto forte do crédito soberano. O País é descrito como uma economia com reservas elevadas, baixa exposição a dívidas em moeda estrangeira e fluxos recorrentes de investimento externo. Para as agências, o principal foco de risco permanece o fiscal: o desequilíbrio das contas públicas pressiona os juros e aumenta o custo da dívida do governo.

Já o Tesouro Nacional avalia como “bastante confortável” a cobertura da dívida externa e monitora o mercado para novas emissões no exterior.

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2026-10-21T07:00:00.0000000Z

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