O Estado de S. Paulo

Questão fiscal dá força a debate sobre revisão do papel do BNDES

Avaliação é de que dilema entre estimular investimentos e conter gastos será crucial para futuro do banco, influenciando política econômica do próximo governo

PAULA MARTINI PROGRAMAS NÃO TRAZEM DETALHES SOBRE PLANOS PARA BNDES. PÁG. B2

Ampliar o crédito ou conter gastos para enfrentar o endividamento público será um dilema da próxima gestão.

Ampliar o crédito para estimular novos investimentos na economia ou conter os gastos para enfrentar o endividamento público, que é uma das principais preocupações dos economistas? O dilema estará na mesa do próximo presidente da República e deve balizar o futuro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), seja sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou de Flávio Bolsonaro (PL).

Para analistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, uma eventual ampliação do crédito público também pode entrar em conflito com a política monetária do Banco Central, que ainda tenta consolidar uma curva decrescente para a inflação. A atual gestão do BNDES tem sustentado que a maior parte dos financiamentos é concedida a taxas de mercado e que, neste sentido, o banco atua de forma complementar ao setor privado, e não como substituto. Procurado pela reportagem, o BNDES não se manifestou sobre o assunto.

A analista de macroeconomia da InvestSmart XP, Sara Paixão, afirma que a preocupação do mercado não é ampliar o volume de crédito a qualquer custo, mas garantir retornos sustentáveis no longo prazo.

“O grande desafio é pensar em como vamos ter um banco focado em elevar estruturalmente a infraestrutura do Brasil, mas, ao mesmo tempo, dentro de um governo que precisa obrigatoriamente fazer um ajuste fiscal”, afirma a analista.

Avaliação semelhante é feita por Rodrigo Marinho, CEO do Instituto Livre Mercado. Para ele, o endividamento do País exigirá um ajuste fiscal rigoroso, independentemente de quem vencer a eleição.

“Nem Lula nem Flávio terão margem para usar o BNDES com folga orçamentária, porque o Orçamento do Brasil estará absolutamente comprometido. A situação vai ser de ajuste fiscal muito pesado, seja o governo que for”, diz.

Para a diretora de macroeconomia para Brasil no UBS GWM, Solange Srour, a expansão do crédito subsidiado pode produzir um duplo efeito negativo: pressionar a dívida pública e reduzir a eficácia da política monetária no combate à inflação. Isso porque os setores beneficiados por financiamentos com juros favorecidos ficam menos expostos aos efeitos da alta da taxa Selic.

“Um crescimento do BNDES vai acabar impondo mais custo fiscal e impor um peso à política monetária porque você tem uma parcela da economia que fica praticamente imune à política monetária, porque está vivendo no crédito subsidiado”, argumenta ela.

Efeito

Eventual ampliação de crédito público poderia conflitar com política monetária do BC

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2026-10-22T07:00:00.0000000Z

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