O Estado de S. Paulo

Exército aponta avanço de facções e ataques hackers como ameaças à defesa

CIE detectou 754 bilhões de tentativas de invasão nos sistemas digitais em 2025; cocaína que passa pelo País valeria R$ 50 bilhões

MARCELO GODOY

Informações sobre o avanço dos crimes transnacionais e cibernéticos levantadas pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE) apontam 754 bilhões de tentativas de infiltração nos sistemas digitais brasileiros em 2025, relata Marcelo Godoy. Em outra frente, o CIE estima em R$ 50 bilhões o valor da cocaína que passa pelo País por meio de facções como PCC e Comando

Vermelho. Os números foram dados pelo general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, chefe do CIE, em palestra no QG do Exército sobre ameaças ao Brasil. Na mesma palestra, o general Jacy Barbosa Júnior, comandante da Defesa Cibernética, citou ataque hacker em abril à cadeia de suprimentos da empresa Digitro, responsável pelo Sistema Guardião, usado pelas forças policiais para interceptações telefônicas. A ação, segundo o general, teve motivação “ideológica” e resultou em vazamento de dados na rede.

250 toneladas

de cocaína saem por ano pelo País, segundo o CIE. O mercado interno movimenta cerca de 8 mil toneladas de maconha e skunk

“O que nós (militares) temos de entender nessa dinâmica e ameaça é que existem organizações criminosas com alto poder de renda e lucratividade acima da média”

General Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do CIE

O Centro de Inteligência do Exército (CIE) tem monitoramentos recentes sobre o avanço dos crimes transnacionais e cibernéticos no País. O CIE detectou 754 bilhões de tentativas de infiltrações nos sistemas digitais brasileiros somente em 2025 e estima em R$ 50 bilhões o valor da cocaína que passa pelo País, sob o controle de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC).

As informações foram apresentadas pelo general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do CIE, em uma apresentação de 20 minutos no quartel-general do Exército focada em tratar das ameaças ao Brasil. Ele listou atores estatais e não estatais, estes últimos enfeixados em três blocos, representados por bandos organizados, organizações criminosas e ameaças cibernéticas. Tratava-se de uma oportunidade rara: o chefe da inteligência militar fazer uma exposição sobre os ganhos financeiros e as razões ideológicas que motivam cada tipo de ameaça ao Brasil, um país que está sob ataque de grupos criminosos, alguns dos quais exercem “controle territorial limitado, desafiando o Estado e gerando instabilidade”.

O oficial tratou das inúmeras organizações criminosas que se articulam no País, não se limitando ao PCC e ao Comando Vermelho (CV), que têm um grande portfólio de ilícitos. E concluiu: “Não há limite para a cadeia criminal”. Quem assistiu à fala do general teve a certeza de que as ações do crime transnacional ocupam um papel central nas preocupações do CIE.

O Brasil, no relato do general, está cercado pelos três maiores produtores de cocaína do mundo, Colômbia, Peru e Bolívia, e pelo maior produtor de maconha, o Paraguai. Para que toda essa droga chegue à Europa e à Ásia, o caminho mais fácil é passar pelo País “Portanto, o Brasil é um entreposto. Nós estamos exatamente dentro do fluxo da cadeia logística”, disse o general.

O PCC, que domina a Rota Caipira da droga, manteria contatos com cinco grupos criminosos no Peru e na Bolívia e com o venezuelano Tren de Aragua, com atuação em Roraima, enquanto o CV manteria relações com um cartel peruano e dois dos Grupos Armados Organizados Residuais, formados por dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), explorando a Rota do Solimões para levar cocaína para Europa, Ásia, África e Oceania.

Pelos cálculos do CIE, só o mercado interno brasileiro movimenta cerca de 8 mil toneladas por ano de maconha e skunk e em torno de 170 a 200 toneladas de cocaína, o que geraria uma receita bruta de R$ 30 bilhões. A inteligência estima que, no mínimo, 250 toneladas de cocaína saem por ano pelo Brasil. “Estamos falando numa receita bruta de mais ou menos R$ 50 bilhões/ano”, afirmou o general.

Defesa cibernética ‘A grande preocupação não é com a IA em si, mas é a informação que vai ser tratada por ela’, diz general

Para ele, trata-se de um negócio que ameaça, “de certa forma, a soberania do Brasil de maneira limitada e, portanto, ameaça uma parte da defesa”. “Mas isso não quer dizer que nós somos os elementos principais que têm de combater esses grupos.” E citou a área da Cabeça do Cachorro, na Amazônia, onde os três principais grupos colombianos em articulação com o CV não atuam somente no narcotráfico, mas também se dedicam à mineração ilegal e a extorsões. “Isso é o que ameaça a soberania.”

AMEAÇAS CIBERNÉTICAS. O militar abordou ainda as ameaças cibernéticas e expôs as mais de 754 bilhões de tentativas de intrusão dentro do Brasil. “E eu posso assegurar aos senhores que muitas delas foram bemsucedidas de certa forma pela fragilidade das instituições, inclusive públicas”, contou. Nesse campo, as ameaças são híbridas – praticadas por atores estatais e não estatais, por razões ideológicas ou financeiras. “Quem está por trás de um grupo hacker? Nós sabemos, tem várias APTs (ameaças persistentes tecnológicas). Essas ameaças tecnológicas têm por trás atores estatais que estão financiando isso.”

Para o general, o sistema de inteligência do Exército foi montado em cima de fontes humanas, mas desde 2010 uma enxurrada de fontes tecnológicas mudou o trabalho do órgão, impondo o desafio da capacitação. “Tropa como sensor é também importante. Mas as fontes tecnológicas nos impõem, por exemplo, gente que é especializada em gerar inteligência”, disse.

Na sequência, o general Jacy Barbosa Júnior, comandante da Defesa Cibernética, iniciou sua apresentação. “Você demora em torno de cinco anos para formar um operador cibernético

“O que nós (militares) temos de entender nessa dinâmica e ameaça – e a gente não pode cair na armadilha da securitização; eu estou deixando aqui bem claro aos senhores a posição da inteligência – é que existem organizações criminosas com alto poder de renda e lucratividade acima da média”

General Carlos Eduardo Barbosa da Costa Comandante do CIE

e gasta em torno de R$ 300 mil em capacitação”, contou. As ameaças cibernéticas não estão somente no teatro das guerras, mas também nas zonas de defesa, na zona de interior, nos territórios dos países.

Em dezembro, a Polônia sofreu o maior ataque cibernético contra seu setor de energia – o malware DynoWiper foi usado para apagar permanentemente dados – e a ação foi atribuída a hackers russos. O general comparou o ataque à ação no Brasil contra a Digitro, empresa responsável pelo Sistema Guardião, usado por forças policiais para interceptações telefônicas. “Nove de cada dez empresas de segurança trabalham com sistemas deles.”

De acordo com informações da Defesa Cibernética, em 8 de abril foi registrada uma ação contra a cadeia de suprimentos da Dígitro. Esses casos são chamados de supply chain attack, quando os criminosos não atacam o alvo final (como um órgão do governo), mas uma empresa com acesso legítimo ao alvo. O resultado foi o vazamento de 3,39 TB de dados, incluindo código-fonte e arquivos internos de soluções de inteligência e interceptação legal. As informações foram ofertadas para download na plataforma DDoSecrets. “A motivação (desse grupo) não é financeira, é ideológica. Ele acha que é o sucessor do Wikileaks (grupo que vaza dados sigilosos). Acontece só no setor militar? Não, senhores, nós vemos isso todo dia, em todo lugar”, disse o comandante.

Barbosa Júnior relatou ainda outro ataque, em 24 de junho de 2025, que provocou a “negação de serviço em praticamente todo o governo federal”. “Saiu do domínio gov.br e aí cascateou para PF, para Abin, para o INSS, ConnectSUS. Então, senhores, isso é o dia a dia. As ameaças que estamos olhando: espionagem, desinformação, ataque a posicionamento de infraestruturas críticas são atividades de ameaça ao Estado.”

O general afirmou que nesse campo atores não estatais representados por organizações criminosas internacionais usam ransomwares, um tipo de software malicioso, para invadir sistemas e criptografálos para pedir um resgate. “E aí você tem dois problemas: se você paga, se torna bom pagador. Se você não paga, muitas vezes pode ter um hospital hackeado, e aí morre gente. Isso está cada vez mais barato de se contratar.”

IA. Para o general, essas ações são ameaças à soberania de um Estado, pois põem em risco serviços essenciais e infraestruturas críticas, inclusive, para as Forças Armadas. O general concluiu tratando do desafio que a inteligência artificial acrescenta à Defesa Cibernética. “Na prática, se você não tiver o tratamento dos dados dentro de um local onde você consiga controlar, a informação vai fluir por onde você não pode protegê-la. A grande preocupação da cibernética com a IA não é com a ferramenta em si, mas é a informação que vai ser tratada por ela.”

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2026-07-21T07:00:00.0000000Z

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