O Estado de S. Paulo

Renda comprometida e juro alto levam calote a nível recorde

Em ano eleitoral, 81,7 milhões de brasileiros estão inadimplentes

AMPLIAÇÃO DO CRÉDITO CONTRIBUI PARA AUMENTO DO ENDIVIDAMENTO. PÁG. B2 MÁRCIA DE CHIARA

OBrasil nunca teve tantos inadimplentes nem registrou dívidas tão elevadas. O ritmo de crescimento dos débitos já supera a inflação acumulada nos últimos dez anos, informa Márcia De Chiara. Este aperto no bolso do consumidor ocorre enquanto a taxa de desemprego está na mínima histórica, a renda real dos trabalhadores bate recorde e a economia cresce. Reduzir a inadimplência de 81,7 milhões de pessoas, com dívidas não pagas que somavam R$ 539 bilhões em fevereiro, é preocupação do governo em ano eleitoral. Em meados de 2025, cada brasileiro tinha, em média, 70,5% da renda destinada a pagar dívidas e contas básicas como água, luz, telefone e aluguel. A taxa básica de juros, em 14,75% ao ano, é apontada por economistas como o principal fator do endividamento.

Nunca houve tantos brasileiros inadimplentes nem dívidas em patamares tão elevados como agora no País. Pior: o ritmo de crescimento dos débitos já supera a inflação acumulada nos últimos dez anos.

O que chama a atenção é que esse aperto no bolso do consumidor ocorre mesmo com a taxa de desemprego na mínima histórica, a renda real dos trabalhadores batendo recorde de alta e a economia crescendo.

Reduzir a inadimplência que afeta hoje 81,7 milhões de brasileiros, com dívidas não pagas que somavam R$ 539 bilhões em fevereiro deste ano, segundo a datatech Serasa Experian, virou foco de preocupação do governo, sobretudo em ano eleitoral.

Mas o que explica essa aparente contradição entre o bom desempenho da macroeconomia e a dificuldade nas finanças pessoais? O pano de fundo, segundo economistas especializados em crédito ouvidos pelo Es

tadão, é a elevada taxa de juros. A Selic ficou por muito tempo estacionada em 15% ao ano, o maior nível em duas décadas.

Em 18 de março, o juro básico teve um ligeiro recuo para 14,75%. Além dos juros elevados, o alto comprometimento da renda dos brasileiros é apontado por especialistas como um fator que turbinou a inadimplência.

Em meados do ano passado, por exemplo, cada brasileiro estava, em média, com 70,5% da sua renda comprometida com pagamento de dívidas assumidas e com contas básicas do dia a dia, como água, luz, telefone e aluguel, revela pesquisa da datatech.

Por faixa de renda, o cenário é ainda pior. Quem ganhava um salário mínimo por mês (R$ 1.621) tinha 90% da renda comprometida com dívidas e com contas básicas. E quem recebia dois salários mínimos (R$ 3.242), 80%. De acordo com a datatech, 78% dos inadimplentes têm renda de até dois salários mínimos.

“Isso mostra o quanto o brasileiro está supercomprometido e nos ajuda a entender por que estamos no nível recorde de inadimplência no Brasil, mesmo com o mercado de trabalho superaquecido”, afirma a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.

O dado sobre comprometimento de renda da Serasa supera de longe o do Banco Central (BC), que não inclui contas básicas. O comprometimento de renda com dívidas, segundo o BC, alcançou 29,3% em janeiro deste ano, maior patamar da série iniciada em 2005, incluindo o financiamento imobiliário. Quando é excluído o crédito para compra da casa própria, o comprometimento da renda recua para 27,1%.

“É isso que gera inadimplência: as pessoas acabam comprometendo demais a sua vida com as dívidas, às vezes não por culpa delas, mas por culpa de algo externo, que foi o aumento dos juros”, diz Luiz Rabi, economista-chefe da Enótita Investimentos, escritório de investimentos da XP. •

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Em 2025, brasileiro estava, em média, com 70,5% da renda comprometida com dívidas do dia a dia

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2026-04-19T07:00:00.0000000Z

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