O Estado de S. Paulo

Anorexia de criança e adolescente cresce e desafia poder público

Transtornos alimentares avançam impulsionados pelas redes, dizem especialistas; em SP, no SUS, de 2023 a 2025, atendimentos por saúde mental entre 5 e 9 anos subiram 50%

ISABELA MOYA

Redes sociais impulsionam transtornos alimentares, dizem especialistas. Os casos, inclusive entre meninos, cresceram após a pandemia.

50% foi o aumento em SP do atendimento de saúde mental entre 5 e 9 anos

Lara* tinha dez anos quando começou a ver vídeos de receitas saudáveis. Não demorou para o algoritmo sugerir conteúdos sobre as calorias das receitas e “como perder 200 gramas em um dia”. Depois, passou a procurar “quanto tempo andar de bicicleta para emagrecer”. Assim, o caminho para a anorexia começou.

No começo, Flávia*, mãe de Lara, achava que ela queria apenas ser mais saudável. Com o tempo, as porções que ela comia ficaram menores e ela passou a usar estratégias para fingir que estava se alimentando. Ela dava o miolo do pão para o irmão e esfarelava o restante para parecer que já havia comido; também colocava pouco leite na caneca e fingia que já havia tomado o copo todo.

O comportamento da menina também mudou. “Ela ficou muito insegura com as amizades e até comigo. Me perguntava o dia inteiro: ‘Você me ama? Tem certeza?’”, diz a mãe. “Não sei se por fome, ela também ficou muito irritada, agressiva, o que nunca foi.” Flávia levou a filha à psicóloga e entendeu a relação dos sentimentos com a alimentação.

Lara tinha medo de perder as amizades. Quando uma colega elogiou o fato de ela não comer “besteiras”, ela entendeu que comer de forma cada vez mais “saudável” a tornaria mais admirada e amada, conta a mãe. Foi aí que passou a assistir a vídeos do universo fitness, feitos em sua maioria por adultos, nas redes sociais. Aos 10 anos, estava obcecada por calorias e emagrecimento, e chegou a pesquisar quantas calorias perdia ao chorar.

Lara não é um caso isolado. De 2023 a 2025, os atendimentos por questões de saúde mental no SUS no Estado de São Paulo entre 5 e 9 anos cresceram cerca de 50%. Apesar da maioria estar relacionada a transtornos do desenvolvimento e deficiência intelectual ou atraso cognitivo, crescem também os casos de transtornos de humor e alimentares – especialmente após a pandemia, segundo a psicóloga Rogéria Taragano, especialista em transtornos alimentares e supervisora do Ambulatório de Anorexia Nervosa do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP).

O aumento de casos entre crianças chama atenção porque, na infância, a preocupação costuma ser com a aceitação da família, sem grande pressão social; é só na adolescência que a opinião das outras pessoas ganha peso.

“A criança ganha acesso livre a um celular muito cedo, ficando exposta a esses conteúdos sem que esteja preparada para lidar com todos esses estímulos do ponto de vista do desenvolvimento neurológico e mental. Podemos inferir que essa adolescência esteja acontecendo mais cedo – não do ponto de vista corporal, mas das pressões sociais”, avalia.

Mudanças

Com o tempo, as porções que a menina comia diminuíram, e ela passou a fingir que se alimentava

As redes sociais não são o único problema. Os distúrbios alimentares – assim como os demais transtornos psicológicos – dependem da combinação de diferentes fatores: biológicos, sociais, familiares e psicológicos. Características como perfeccionismo, ansiedade e baixa autoestima podem contribuir para o desenvolvimento de transtornos alimentares, assim como um ambiente em que familiares e amigos valorizam a magreza, onde haja um culto ao corpo ou quando a pessoa sofre bullying.

ALGORITMO DA MAGREZA.

Como acontece em muitas famílias, Flávia não sabia do teor dos vídeos voltados ao emagrecimento que a filha assistia. “Quando eles estão no celular, eu estou ouvindo o tempo todo. E eu nunca ouvi essas coisas. Como eu não percebi? Mas eles fazem coisas que a gente não percebe”, relata.

Nas redes, a valorização da magreza extrema tem ganhado grande espaço. A anorexia e a bulimia afetam mais meninas e mulheres, mas crescem os casos entre homens e meninos, em busca de corpos musculosos.

“Muitas pessoas passam a acreditar que só terão valor pessoal se modificarem o corpo. A autoestima fica totalmente condicionada à aparência”, explica a especialista.

Apesar de o Brasil ter avançado no controle das redes para menores com a proibição dos celulares nas escolas e o ECA digital, ainda há um desafio em relação às famílias, que precisam entender os riscos atrelados ao ambiente digital, avalia Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, organização que atua na defesa dos direitos da criança e do adolescente. “O desenvolvimento da criança é uma responsabilidade compartilhada”, afirma.

Rogéria concorda. “(É preciso) limitar o uso. E quando autorizar, com muito controle parental, sabendo a que tipo de conteúdo o seu filho está tendo acesso”, diz a psicóloga.

Márcia defende ainda que o SUS amplie ações de prevenção

“A criança ganha acesso livre a um celular muito cedo, ficando exposta a esses conteúdos sem que esteja preparada para lidar com estímulos do ponto de vista do desenvolvimento neurológico e mental. Essa adolescência talvez esteja acontecendo um pouco mais cedo do ponto de vista das pressões sociais”

Rogéria Taragano

Psicóloga (Ambulim-USP)

e tratamento de saúde mental voltadas a crianças e adolescentes, e aponta a falta de preparo da saúde pública para a crescente demanda. Ela também critica a ausência de políticas voltadas aos adolescentes, que considera negligenciados na saúde. “(Precisamos) capacitar os profissionais para identificar esses problemas de saúde mental, seja na saúde, na escola ou na assistência social, e criar uma rede de acolhimento para demandas de qualquer tipo de transtorno”.

TRATAMENTO.

Lara perdeu muito peso, sua pressão arterial e seus batimentos cardíacos caíram e ela mal conseguia ficar de pé. A desnutrição causada pelos transtornos alimentares pode provocar fraqueza muscular intensa e, em crianças e adolescentes, comprometer o crescimento. Entre as complicações estão a interrupção da menstruação, queda de cabelo, tonturas e desmaios.

O tratamento é feito por uma equipe multidisciplinar: psicólogo, psiquiatra e nutricionista. Casos mais graves, em que há risco de vida (pela desnutrição ou por tentativa de suicídio), podem exigir internação.

Quando se trata de crianças, o foco do tratamento do transtorno alimentar é a família, explica Rogéria. É fundamental revisitar o contexto familiar e refletir sobre como questões relacionadas à imagem corporal, à alimentação e aos padrões de beleza são vivenciadas e transmitidas dentro de casa. “Muito cuidado com comentários, com críticas em relação ao próprio corpo, ao corpo da criança e ao corpo dos outros. Isso entra na cabeça deles, a criança traz para ela. Mesmo que a mãe ou pai tenha alguma questão com o próprio corpo, deve comentar com outra pessoa, mas não na frente dos filhos”, afirma.

Extremo

Casos graves, com risco de vida (por desnutrição ou por tentativa de suicídio), podem exigir internação

A forma como a família se alimenta também impacta. “Não devemos reforçar que só pode comer comida saudável e criar mitos em torno de ‘comida lixo’”, diz a especialista.

Quanto mais cedo a criança recebe o diagnóstico de um transtorno mental e tem acesso a um tratamento com apoio multiprofissional, menores serão as consequências ao longo do seu desenvolvimento.

DESAFIOS.

Após três tentativas recusadas, Flávia conseguiu internar Lara no Hospital Infantil Sabará, onde a menina ficou por três meses. Durante o tratamento, foram muitos os desafios. Buscando emagrecer ainda mais, a menina passou a subir e descer as escadas do prédio e fazer exercícios escondida no banheiro. No início, também não aceitava comer e precisou ser alimentada por sonda. Com a evolução do tratamento, ela foi melhorando e, aos poucos, aceitando alimentos, aumentando a quantidade ingerida e desenvolvendo uma relação mais saudável com a comida.

Hoje, mais de um ano após a alta do hospital, Lara, agora com 11 anos, está em um peso saudável e não tem mais medo da comida, conta a mãe. Mas a família ainda fica muito atenta à alimentação e ao comportamento da menina, que segue sendo acompanhada em terapia com psicólogo e psiquiatra. “Hoje, ela é livre. Ela topa hambúrguer, comida japonesa, ela aprendeu a comer. Mas a gente tem consciência de que o transtorno está ali, só de mansinho.” •

* OS NOMES SÃO FICTÍCIOS PARA PRESERVAR A IDENTIDADE DA MENOR DE IDADE

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