Só a maquete de um empreendimento de luxo vale o preço de um apartamento
Representação do Parque Global, em SP, com torres residenciais, hospital, hotel, shopping center e parque. Gasto com uma miniatura pode ir a R$ 2 milhões.
LUCAS AGRELA
Os empreendimentos de luxo com apartamentos vendidos a preços que vão de R$ 5 milhões a R$ 200 milhões têm utilizado maquetes milionárias como um dos chamarizes para consumidores de alta renda. Como o valor total do faturamento do projeto é elevado, por vezes chegando a bilhões de reais, essas miniaturas detalhadas dos empreendimentos têm ficado mais sofisticadas e caras.
O motivo para o desenvolvimento dessas maquetes mais valorizadas está ligado à possibilidade de visualização do que será construído de uma forma que vai além de fotos e vídeos, além de representar a primeira conversão do projeto em algo real. Outra razão está relacionada ao tamanho dos edifícios, que ficam cada vez maiores em cidades do litoral de Santa Catarina e em São Paulo.
Chamado Senna Tower, o projeto da FG Empreendimentos em Balneário Camboriú (SC) será o maior edifício residencial do mundo. Sua maquete teve custo estimado entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões, o que não deve ter impacto significativo na margem de lucro das vendas de apartamentos. Além da “construção” da maquete em si, o que encareceu o projeto foram luzes LED programáveis.
A maquete foi elaborada em conjunto com o estúdio Bustamante Arquitetura, com o fornecimento de parte dos materiais e envolvimento direto de executivos da FG. Assim, o custo do serviço, que durou oito meses, foi reduzido.
A miniatura do prédio, que terá 550 metros de altura, foi feita em uma escala de 1:43. Com isso, ela ficou com 16 metros, o que equivale a quatro andares de altura. A estrutura foi colocada em um estande de vendas com paredes de vidro para que pudesse ser vista por quem passa pela região onde ficará o prédio – na Av. Atlântica, de frente para o mar.
Stéphane Domeneghini, diretora executiva da Talls Solutions, braço especializado em prédios altos da FG Empreendimentos, conta que a maquete tem uma treliça metálica e até uma pequena fundação para que fique estável. “Quem for ao mercado para comprar uma maquete dessa com certeza vai encontrar um preço de R$ 5 milhões. Por a gente ter feito algumas partes, como a estrutura metálica, o rapel e o andaime serem nossos, não custou tanto assim”, diz.
Segundo Stéphane, a maquete acabou estimulando a criação do estande com um apartamento decorado e uma sala imersiva, com vídeo que mostra a história do conceito do empreendimento, totalizando cerca de R$ 30 milhões em investimentos de marketing nesse espaço. A ideia por trás do aporte foi tornar o estande da maquete gigante num ponto turístico da cidade – ele permanecerá montado por ao menos cinco anos.
O Senna Tower terá 157 andares e será mais alto do que o Central Park Tower, prédio que hoje é o maior residencial do mundo, com 472 metros de altura. O empreendimento da FG tem previsão de conclusão entre 2033 e 2035 e tem Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 8,5 bilhões. A cobertura será colocada à venda por mais de R$ 200 milhões.
O projeto é fruto de uma parceria da FG com a família Senna e a varejista Havan, que é a dona do terreno.
NICHO ESPECÍFICO. O mercado de maquetes faz parte de um nicho específico dos serviços de arquitetura e há poucas empresas especializadas. Por isso, é comum que as maquetes sejam produzidas por prestadores de serviço que são arquitetos ou professores de arquitetura e entusiastas dessas miniaturas de projetos imobiliários.
Na Vila Andrade, zona sul de São Paulo, a incorporadora Benx e a americana Related executam as obras de um dos maiores empreendimentos da cidade nos últimos anos.
Diferencial
Maquete pesa na decisão de compra de pessoas que podem ter imóvel aqui ou nos EUA, diz especialista
Chamado Parque Global, o projeto terá cinco torres residenciais, um complexo médico de oncologia do Albert Einstein composto por seis torres (incluindo um hotel V3rso, marca do Hotel Emiliano), um shopping center e um parque. O VGV do projeto é de R$ 14,2 bilhões e a conclusão está prevista para 2029, quando o shopping center estará finalizado. O quinto prédio residencial será entregue no fim deste ano, enquanto o complexo médico está previsto para 2027.
Para representar todo o projeto, a maquete precisou ser muito mais elaborada do que a média, e levou seis meses para ficar pronta, o dobro do tempo médio para esse tipo de serviço. O projeto foi realizado pelo estúdio Fogassa Maquetes, liderado por Adhemir Fogassa, um dos maiores nomes do setor no mundo. Seus projetos já foram expostos nos exterior – Estados Unidos, Emirados Árabes e Europa – devido ao seu padrão de qualidade.
O diretor-geral do Parque Global na Benx, André De Marchi, diz que a complexidade, o tamanho e o detalhamento da maquete foi o que elevou o custo a um patamar acima do tradicional, que costuma ser inferior a R$ 1 milhão.
De Marchi lembra que a amplitude do projeto foi um dos fatores que mais elevaram o preço da miniatura – o terreno tem área total de 218 mil metros quadrados (m²). Para efeito de comparação, o espaço equivale a cerca de 30 campos de futebol, com 7,1 mil m² cada.
Na visão da arquiteta, urbanista e professora do hub de luxo da ESPM, Cintia Lie Matuzawa, a experiência de compra do público de alta renda precisa ser especial para que contratos sejam assinados, e as maquetes têm um papel importante no processo de compra. “Para quem vai ver um apartamento desses, o problema não é o dinheiro, mas sim decidir em qual empreendimento ele vai comprar. As incorporadoras travam uma batalha enorme entre elas, porque o consumidor de luxo pode comprar um desse em Camboriú, São Paulo ou em Miami.” •
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